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 Á CONVERSA COM

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AutorMensagem
Antonio Mendes



Número de Mensagens : 823
Data de inscrição : 24/07/2008

MensagemAssunto: Á CONVERSA COM   Ter Out 14, 2008 5:36 pm

A Ti Joana





Nasce numa casa pobre, na Azinhaga (na vila). É criada sem pai e aos 9 anos entra na escola do mestre Banha . Aos 14 começa a servir, primeiro como criada de fora (criada dos quartos), depois passa para a cozinha, acabei os meus tempos na Cozinha, diz-nos e cozinheira se manteve durante toda a vida Aos 22 anos, casa.
Mas voltemos entretanto aos seus tempos de juventude.
A Ti Joana foi uma mulher da Vila. Onde se realizavam os bailaricos?
- Na Séde e no Grémio. Á Sede iam os oficiais - sapateiros carpinteiros, alfaiates - costureiras e uma ou outra criada de servir. Ao Grémio iam os mais camponeses.
Nunca foi a bailes do campo?
- Ainda fui, no tempo da minha mãe. Andava à Escola e já ia aos bailaricos, com as minhas irmãs e com a minha mãe.
Quais eram as modas desse tempo?
- Dois passos, Valsa, Mazurka, Chotiça, Corrida, Polca, a Chula.
Que festas se faziam então?
- Era a Festa do Senhor das Almas, durante três dias, sábado, domingo e segunda.



Era o tempo do mercado na Praça..
- O mercado foi mais tarde.
Falemos agora da cozinheira. Quais eram as comidas num casamento?
- Canja de galinha, ensopado de borrego e de chibo. Chibo assado, frango corado Arroz corado.
Como era o dia do casamento?
Os convidados do noivo almoçavam em casa do noivo e os convidados da noiva em casa da noiva. Depois do casamento, à tarde ou à noite juntavam-se então todos.
O que é que nessa altura os padrinhos ofereciam?
- O padrinho do noivo oferecia-lhe o fato do casamento, e a madrinha da noiva oferecia-lhe o vestido de noiva. No meu tempo, casei há mais de sessenta anos, já se usava o vestido branco até aos pés.
- E o fato normal da mulher ainda era até aos ortelhos?
Nessa altura já se usava saia a cima do joelho, chamava-se saia curta. Se era vestido, a saia do mesmo dava pelo meio das pernas.
Era nessa altura que as mulheres do campo quando vinham à vila só se calçavam à entrada da vila?
- Era, vinham com os sapatos na mão.
Para os pouparem pois só tinham um par.
- E se calhar porque habituadas a andar descalças era um sacrifício andarem calçadas.
As raparigas da vila davam-se bem com as raparigas do campo.
- Havia diferenças, pois ate chamavam cabreras às do campo.


E os homens do campo?
- Também havia diferenças. Esses quando vinham à Vila tinham que deixar os cajados à entrada. Quando chegavam à do Ti Manassa, punham os cajados atrás da porta para evitar as zaragatas. já cá havia a Guarda, era naquelas casas que eram das da Biquinha, pegadas às do António Júlio.
Voltando à Cozinheira, como eram as comidas nos baptizados?
Era igual à dos casamentos. A não ser que dessem só um lanche, em que davam só bolos e bebidas.
Iam para a Igreja em desfile, a pé?
Era as parteira, que ficava a ser madrinha da criança e comadre da família que levava a criança. A parteira levava uma toalha branca muito bonita, com uma grande renda, e que era para limpar a cabeça da criança quando junto à pia o senhor Prior lhe pusesse água sobre a cabeça. Era mesmo tradição...
Voltando ainda à cozinheira. Como era a comida pela Páscoa?
Era a mesma do Carnaval e doutros dias de festa. Havia então dos doces, em especial a tejelada , sempre assim foi .Enquanto no Natal eram os fritos, os pastéis e filhoses.
Ainda se lembra bem do Carnaval desse tempo?
Era muito alegre, porque estava cá o Zé da Barraca, e antes foi o Pinta Santos. Eram as “contra-danças”, a passarem pelos arcos, era muito bonito. E foi também, pelo menos uma vez o pau (o mastro) com fitas de várias cores, a fazerem aquele xadrez.
Voltamos à comida, ou não fosse a Ti Joana cozinheira. Mas durante a semana não era essa a comida do dia a dia (ensopado, etc.)
- Pois não, havia outras comidas: sopas de carne, feijão com couve, muitas outras.
Era uma população religiosa?
- A grande maioria era ,e durante a Quaresma acontecia que para não terem na comida nem uma pinga de gordura, queimavam (o interior) as panelas de barro. Só a partir das 10 horas de Sábado de Aleluia é que voltavam a comer carne.
A Feira da Ponte era uma festa para a terra.
Andava-se um ano inteiro a guardar compras para fazer na Feira da Ponte.
E como iam para lá?
- Iam de carro de mulas ou mesmo a pé.
Uma última questão. Nesse tempo as pessoas eram mais amigas umas das outras...
- Eram sim senhora. Por exemplo no Carnaval, que era uma festa de três dias ,as pessoas juntavam-se a comer em casa umas das outras...


Foi uma curta conversa com a senhora Joana Maria Moreira (a ti Joana),que mais tarde teve um Café na hoje Rua 1º de Maio (antiga Rua dos Serrados ) e que ainda hoje com os seus 86 anos vai fazendo apetitosos bolos e os célebres pirolitos de chupar.

Lino Mendes


Última edição por Antonio Mendes em Ter Out 14, 2008 5:51 pm, editado 1 vez(es)
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Antonio Mendes



Número de Mensagens : 823
Data de inscrição : 24/07/2008

MensagemAssunto: Re: Á CONVERSA COM   Ter Out 14, 2008 5:50 pm

Manuel Marques Ramalho


Nasceu no Monte da Fonte, na Serra, em 31 de Novembro de 1915. Pelo nome alguns não o conhecerão, mas se falarem no Parracha, que vende tremoços e castanhas não há montargilense que não saiba quem é. Foi trabalhador no campo, foi guarda-florestal, montou uma loja na vila. É também uma das pessoas que nos pode ajudar a conhecer a história da nossa terra. Por isso...
O senhor Manuel andou na Escola?
Andei só um ano, aprendi qualquer coisita mas só mais tarde na tropa aprendi mais alguma coisa... Naquele tempo fazia muita falta lá em casa, o meu pai era muito pobre, e como eu fugia de vez enquanto... Vinha da Serra a pé, descalço, aí por essas coisas acima, cheguei a pontos que aquilo já não era nada... Saí da Escola e fui guardar gado, porcos e ovelhas.
Com que idade?
Tinha aí uns oito anos, e com nove fui trabalhar aí para as herdades mais as mulheres, a arrancar mato e a ganhar vinte e cinco tostões.
Vinham muitos miúdos à Escola?
Não vinha quase ninguém, pelo menos do campo quem é que vinha, diga lá, era o professor Banha que estava cá na escola, era onde depois esteve o professor Vieira e mora hoje a Mariazinha.
Eu lá lhe disse eu fugia todos os dias, andava era a jogar à bola.
Que jogos tinham nessa altura?
Eu lembro-me do pico- pau e da inteira.
Que fato vestiam nessa altura?
Vestia umas calcitas remendadas, uma camisita, e andava descalço lá naqueles cardais. Comprava-se então um gabão na Feira da Ponte, chamavam-lhe então um aguadeiro.
A Feira da Ponte era muito importante cá para a terra?
Era na Feira da Ponte que íamos comprar as coisas para todo o ano: roupas, mantas. Íamos nos carros de parelhas ou de bois, era assim é que a gente íamos, e às vezes a pé.
Demoravam muito tempo?
Era sempre um dia para lá, ao meio dia descansávamos no Cansado, à tarde partíamos para a feira. No outro dia era o dia da feira, estávamos ainda lá no dia seguinte até ao meio dia, e regressávamos depois a casa. O carro tinha um toldo.
E como passavam lá a noite?
Passávamos à desgarrada lá nas tabernas, nos cafés, era naquelas barracas a que chamavam um botequim. Balhava-se e cantava-se.
Voltando um pouco atrás...
Aos catorze anos enreguei a trabalhar no campo mas já com os homens, a cavar terra para arroz, a fazer aquelas coisas, já ganhava o preço de um homem. Chegou-se aos vinte fui para a tropa, assentei praça em 36.
A ida às” sortes “era uma festa?
Era, era. Trazíamos foguetes quando voltávamos e depois havia os bailes aí no campo.
Mas não foi de carro de parelha para a inspecção?
Olhe, sabe o que me aconteceu? Fui numa camioneta do Inverno , no caminho tirou-se um pneu, e foi o Trinta que me levou o resto do caminho para Ponte de Sor. Para cá viemos numa carroça do Manuel Carapau. O meu baile foi no Beirão.
Mas então não foram todos para o mesmo baile?
Sabe, naquele tempo havia os grupos, havia o grupo da Vila , o grupo da Farinha Branca, o grupo de Foros do Mocho, depois eram as brigas aqui na Vila, eram uma espécie assim dos partidos...
Quer dizer que tudo trazia o seu cajado de casa...
Cada um tinha as casas para onde puxavam, as casas do comércio onde a gente comprava as coisas, chegavam aqui iam arrumar os cajados, como lhe chamavam, era um pau. Depois, chegava-se à maré da noite, com um bocadinho de sol, cada um ia buscar o seu pauzinho, encontravam-se aí nas ruas, quando mal não se cuidavam era aí a esbrigaçar nessas ruas. A família era assim naquele tempo, pronto.
Mas houve uma altura em que os cajados tinham que ficar à entrada da Vila?
Isso foi já mais tarde, na altura em que em vim da tropa, era no tempo dos regedores.
Ainda se recorda?
Uma vez ainda me lembro, era o António Lopes, que era o dono de S. Martinho, era aqui regedor ou cabo de ordens, ou não sei o quê, engatou-me além na Festa do Senhor das Almas e andei a acarrear cajados quase toda a noite ali para...a prisão, lá mesmo ao canto que é agora a casa da ferramentas, lá ao pé da Igreja, era aí que a gente ia pôr os cajados. A todos os que nas festa traziam cajados, tirei-os.
O senhor Manuel ia aos bailes?
Eu ia aos bailes do campo, a gente não vinha para a vila. Só os rapazes aqui destes arredores é que vinham, agora a gente não.
Os nossos bailes eram lá no campo, era de semana e era ao Domingo, havia sempre bailo.
Mesmo nos dias de trabalho?
Era ao fim do trabalho e era ao fim da semana. No Inverno as mulheres andavam nas azeitonadas, naqueles montes grandes, as mulheres eram muitas e a rapaziada juntava-se lá, e vá de bailar, até às tantas quando os manajeiros deixavam, quando não deixavam tínhamos que parar. Havia muitos rapazes com concertinas e com realejos, e com harmónios de uma escala só, e outras vezes era a cantar.
A cantar as” saias”?
A cantar as “saias”, pois...
Falou aí em manageiro. Qual era a relação do manajeiro, do capataz com os trabalhadores?
Bem vê, quem tem que mandar alguma coisa...
E quando começou na venda da castanha e do tremoço?
Logo que o meu filho veio da tropa, tomou conta daquilo(da loja) e eu comecei a negociar nas castanhas, nos tremoços e noutras coisas. Vendi em Ponte de Sor durante muito tempo, vendi tremoços e castanhas lá ao pé da Rodoviária.
E também vendeu no “mercado da praça”?
Aí não vendi, mas lembro-me. Havia uns tabuleiros mas isso desapareceu tudo.

Foi uma conversa com o senhor Manuel Marques Ramalho, com o senhor Parracha, nos seus 87 anos lúcidos e activos.

Lino Mendes
18/05/2002
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Antonio Mendes



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MensagemAssunto: Re: Á CONVERSA COM   Sex Out 17, 2008 6:56 pm

Sr.Artur dos Moinhos

Tema: Moinhos e Moleiros

Foi em 1995 que conversámos com o senhor Artur do Moinho, tinha ele então ele 84 anos. Nunca andou na escola, e o poucochinho que aprendeu a ler e a escrever, foi na tropa. Aliás, com idade de o fazer, morava no Carvalhoso, eram cinco irmãos e só um é que veio aprender o a-e-i-o-u. Não havia dinheiro e havia que ajudar o pai., pelo que por essa altura, vestindo umas calcitas e uma camisita e descalço já guardava cabras. Aos bailes, especialmente aos do Gavião (Montargil), onde havia muita rapariga, ele ia muito, e até tinha uma concertina que lhe saiu numa rifa na tropa, mas tocava mal, dizia ele..

Mas o motivo principal da nossa conversa, era sobre Moinhos e Moleiros, que foram muito importantes na economia local, e o pai era dono de dois. (moinhos)

Digamos antes de mais, que movidos por água, havia duas qualidades de moinho, o moinho de água e a azenha, o primeiro era movimentado por rodízios e o segundo por alcatruzes. Trigo, arroz, milho, cevada, aveia, tremoço bravo (farinha para dar a porcos).Houve no entanto quem nos afirmasse que a farinha de tremoço bravo era mais para espalhar na terra, para servir de “estrume” A “azenha” trabalhava todo o ano, porque um rego de água para regar uma horta chegava para a fazer trabalhar, mas com os rodízios já não era assim. Trabalhavam de dia e de noite, mas ele e a mulher davam conta do serviço.

À noite quando se deitavam deixavam uma “muega” cheia de “pão” e tinham então um chocalho que quando o cereal se acabava caía para cima das pedras fazendo um barulho que os acordava. Voltavam então a encher a “muega”.

O pagamento do trabalho do moleiro era à “maquia”, primeiramente “à medida” mais tarde ao peso. Tinham eles a percentagem de 12%.De uma maneira geral eram os clientes que iam ao moinho levar o pão, as mulheres à cabeça e os homens às costas, mas por vezes os moleiros também iam de carroça buscar o pão e levar a farinha a casa dos fregueses. O senhor Artur trabalhou com uma carroça mas também com uma parelha.

O aparecimento das moagens foi o fim dos moinhos. Mas ainda nesta altura (1995) se justificava que pelo menos um moinho trabalhasse, dado que a farinha tinha outra qualidade. Para que o “pão” ficasse melhor, era preciso misturar os trigos, o trigo de barba preta (o trigo rijo) misturar com o trigo mole, o que na moagem não se fazia

Entretanto, alguns pormenores importantes para uma melhor compreensão do funcionamento dos moinhos.

Cada moinho tinha dois “casais”se pedras, um para o milho (de granito rijo) e outra para o trigo. Em ambos os casos de vez em quando tinham que ser picadas nas lajes com um “picão”. Os outros cereais eram moídos nas pedras que fossem consideradas as mais apropriadas para o efeito.

Sinal de que eram muitas as searas que se faziam, é o facto de Montargil ter sido sempre uma terra de muitos moinhos. Recuando no tempo, registamos a existência de dois moinhos de vento—Guarita e Biquinha—e de seis “azenhas” ou “moinhos de água—no Vale Carvalhoso(José Inácio, António Miguel, Francisco Godinho, Joaquim Manuelzinho e Júlio Branco) e nas Abertas(Joaquim Fouto).
A diferença entre “ azenha” e” moinho de água”, ambos movidos pela corrente do rio, são que a primeira trabalhava com “alcatruzes” e o segundo através de rodízios.

Já em 1758, as Memórias Paroquiais referem que o rio Sor, entre o Tejo e o Guadiana é o mais caudaloso,” porque quanto conserva as suas águas com que continuamente moem os moinhos, e na força do Verão vão a ele, de muitas terras da província do Alentejo, moer o pão, pelos seus rios secarem nesse tempo e este conservar suas águas. Seis engenhos de moinhos moem continuamente.”

Lino Mendes
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Antonio Mendes



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MensagemAssunto: À Conversa com Custódio Passareco Alves   Qui Nov 20, 2008 7:26 pm




O senhor Custódio Passareco Alves, nasceu no Monte da Formosinha em 1940. De lá foi para a Herdade do Arrão de Baixo, uma herdade muito grande que era da Casa Jordão e lá se formou, lá se fez um homem. À Escola não foi pois não havia nenhuma perto. Nunca aprendeu a ler nem a escrever…

Foi pena…
Mas naquela altura os pais já só pensavam era mandar a gente guardar gado para começar a ganhar alguma coisa.
Com 9 anos fui para traz dum rebanho de vacas para ajuda do meu irmão Silvério. Estava lá até um lavrador e disse leva para lá esse diabo contigo, por que ele evita de andar aqui aos pulos. E foi a partir daí que eu comecei a ganhar as minhas meias comodias.
Meias comodias?
Meias comodias, que era meia canada de azeite, meia canada de feijão frade, meia canada de milho, que se ganhava assim, eram os par-tidos que davam nessa altura. A partir dos 9 anos.
O que eram canadas?
Era uma medida a que chamavam canadas.
Ora diga-me lá. Com 9 anos, qual era o fato que vestia?
Era umas calças de ganga, umas calças de cotim, que era o que havia naquele tempo, que se usava, que as mães arranjavam, que a minha mãe é que fazia o nosso fato, uma camisa, uns sapatos ou umas botas, cheguei a usar uns tamancos, e na cabeça era uma boina e outras vezes em cabelo.
Não havia tempo para brincar, senhor Custódio…
A brincadeira era no campo, porque a gente vivia muitos nos montes, fora as cachopas chegámos a ser lá doze rapazes, no Arrão de Baixo, e raparigas também eram umas cinco ou seis. Agarrávamos uns aos outros, era a arrancação dos nabos, a puxar uns aos outros, faziam-se várias brincadeiras.
É a primeira vez que oiço falar nesse jogo…
Assentávamos todos no chão entremeio das pernas uns dos outros, cada um se agarrava ao que estava na frente, e o que estava de fora começava a puxar a ver se algum se desagarrava e seria esse que ocupava o seu lugar.
Eu nunca arranquei nabos…
Havia outro jogo que a gente lhe chamava de pico-neros, que era com um bocado de um pau aí com 50 centímetros, que se espetava no chão e depois era ver quem é que se derrubava uns aos outros, espetava-se além um e depois era ver quem é que era capaz de o derrubar…
Não era o pico-pau?
O pico-pau era outra coisa. Tínhamos também o jogo dos piões.
E as raparigas?
Jogavam às pedrinhas, e outros jogos, como o jogar ao lenço e ao anel.
Quer dizer, que levavam uma meninice divertida.
As pessoas advertiam-se, era um divertimento mais bonito, com mais, quer dizer com um entusiasmo de brincadeira. Hoje já não há entusiasmo de brincadeira.
E até que idade é que guardou gado?
Até aos 17/18 anos, e depois comecei a ir para as lavouras, começou-se a andar atrás das charruas, a lavrar. Lavravam-se os terrenos todos, faziam-se aquelas folhas de pão, de milho, trigo, aveia, centeio…
Aquelas folhas?
Chamava-lhe a gente folhas. Uma herdade dividia-se em vários sectores, que a gente chama folhas. Cada sector era uma folha. Uma folha de trigo, uma folha de milho, uma folha de centeio. No ano seguinte, mudavam-se as folhas para outro lado.
Por causa do terreno?
Dois anos seguidos nunca se fazia no mesmo sítio. Ficava de pousio para dar pastagem para o gado.
No ano seguinte voltava-se aos mesmos sítios…
Ao fim de dois ou três anos voltava-se ao mesmo sítio.
Este foi o trabalho com que se iniciou?
Foi. Depois cavava terra de arroz, à enxada, que se cavava terra de arroz à enxada, lavrava-se com a charrua dos bois, terra de arroz. Depois a partir dali, comecei a tirar cortiça, aprendi a tirar cortiça, aprendi a esgalhar, andei nas esgalhas, na limpeza das árvores…
Mas também ia ao seu bailarico, não é verdade?
Isso era todos os fins de semana…
Havia lá gente suficiente?
Às vezes até era ao toque do realejo, que eu já tocava. Tocava-se e bailava-se ao mesmo tempo.
Sim senhor. O senhor diz-me aí que chegou à tiragem de cortiça. Ora vamos lá conversar sobre o assunto.
Há três nomes que são da mesma família, mas são diferentes. Há o sobreiro, há o chaparro, há o machôco…
Primeiro há o machôco, que é pequenino, depois há o sobreiro, que está já formado e começa a dar cortiça, e a partir daí passa a ser sempre um sobreiro.
Como se chama o que dá as landes?
A lande é o chaparro. E a azinheira dá boletas, para o gado, mas que a gente também come, cozidas ou assadas…
Um sobreiro demora aí quanto tempo a dar cortiça?
Aí à volta de 18-19-20 anos. Depois faz-se a primeira tirada, que é a cortiça virgem, e a partir daí começa a ser cortiça amadia…de nove em nove anos.
Quantas pessoas é que eram precisas para uma "tirada de cortiça"?
Depende da quantidade de cortiça a tirar. Uma tirada aí de 30 000 arrobas de cortiça, aí um rancho de umas 14 machadas.
Mas além dos "tiradores" que outras funções são desenvolvidas
Os "molheiros", agora há o tractor, mas noutro tempo havia as carroças, as parelhas (de bois, ou de vacas, ou de mulas) "parelheiro" ia puxando as carroças e dando cortiça, e um rapaz, um molheiro para cima para fazer a carrada. Eram quase sempre à volta de duzentos quilos. Ainda se chegou, nalgum tempo, que ainda vi eu, na minha companhia, serem as chegadas, com mulas com cangalhas.
As carroças carregam lá de volta dos homens, onde os homens vão apanhando e vão carregando, e depois vão transportar para onde é a pilha feita. Que as cortiças eram sempre empilhadas ao pé dos "montes". E para isso havia o " empilhador".
Ora vamos lá a ver, já temos o"tirador", já temos o "empilhador"
Mas o senhor ia-me a dizer…
Os primeiros algarvios que vieram para cá, "chegavam" a cortiça numas mulas com umas cangalhas feitas de pau, empilhavam a cortiça nessas cangalhas, e a mula ia toda tapada.
Disse-me aí, que " chegavam"a cortiça…
Era a "chega" da cortiça ao pé das pilhas.
Mas tinham também uma "cozinheira"
E também uma ou mais "aguadeiras" que andavam sempre junto do corte, junto da cortiça, e davam água aos homens. A minha mulher, que nas "tiradas de cortiça" sempre foi cozinheira, chegou a ter a seu cargo noventa panelas de barro, para o que precisava de uma ajudante.
Primeiro, em cada panela era metida a carne, o grão ou o feijão, deixava-se cozer e depois metiam-se as misturas (batatas, cebolas e feijão verde), e que atrás de cada panela se encontravam em tigelas.
E a comida era feita panela por panela…
Era, cada um tinha a sua panela. Cada um punha a comida que queria comer e a cozinheira depois tratava.
A cortiça seria seguidamente vendida
Naquele tempo até se pesava tudo, mas hoje é à cubicagem (ao metro cúbico). Naquele tempo pesava-se com uma "cabrilha", que eram três paus com uma concha, acima da qual era pendurada, uma balança de pião. Eram precisas quatro pessoas, uma ao braço da balança, uma a tomar apontamentos, e dois a porem cortiça em cima dessa concha, que era uma coisa assim feito em ferro, enconchado.
Sempre ouvi dizer que Montargil era das terras com melhor cortiça em Portugal.
Foi até uma das zonas com boas cortiça, boas, boas.
Ouvi dizer, que o facto dos terrenos serem tratados para outras culturas…
… acabavam por melhorar os sobreiros. Naquele tempo as lavouras não eram como são hoje em que é tudo feito a tractores. Naquele tempo era lavrado era com bois, com mulas, é que se lavrava. A gente agarrados àquelas charruas é que lavrávamos.
E as mulheres iam arrancando o mato…
Eu cheguei a trazer às trinta mulheres adiante de mim a arrancar mato. Arrancava-se o mato e depois alqueivavam-se os terrenos para fazer as tais ditas folhas, para se semear o pão-trigos, aveias, centeios
E outros produtos para o gado.
O tempo das tiradas de cortiça era quando…
Começava-se em Junho. Aí nos princípios de Junho, até meados de Agosto. Eu já tirei uma vez até 14 de Setembro, mas isso é um ano por acaso.
O senhor fez de tudo, nos trabalhos do campo…
Em todos os ramos no campo praticamente fiz de tudo um pouco. Nas cefas (ceifas) do pão com as foces (foices) que dantes era tudo ceifado, não havia máquinas, era a gente atrás uns dos outros, monta-va-se uma margem, cada um levava três margens à frente, depois chegá-vamos à ponta do corte, voltava-se a ajeitar o pão e a atar. Depois aquilo é talhado em tornas, e uma torna é, por exemplo, vamos com essas três margens (e isto é só no pão, nas ceifas). Depois faz-se um regueiro, ajuntam-se aqueles molhos todos, assim aos montes que é para os carros os irem buscar. Vão de madrugada, com os carros de bois, íamos carregar para serem trazidos para onde era debulhado naquelas máquinas fixas.
Nas máquinas…
Nas máquinas, que o centeio é que era sempre malhado, a malho. Era assim porque a maior parte das palhas eram aproveitadas para se tapar os barracões. Já no meu tempo, os outros pães foram sempre debulhados com umas máquinas que houve sempre, engatadas com os tractores, outras tinham um motor fixo, adaptado a um coiso em cimento, e era lá aparafusado, e era aí que se engatavam as correias que puxavam essa máquina, e havia um homem que metia o pão lá para dentro, saia o pão e ali ao lado havia um a aparar o saco.
Mas antes desse tempo o pão não era todo malhado?
Não, nunca me lembro de malhar trigos. Malhar sim, milho, centeio, arroz.
Mas agora vamos falar aqui de uma cultura de que ninguém me falou ainda, a do tomate.
É plantado ou semeado?
Agora já se semeia, mas aqui há uns 15 anos não se semeava tomate. Havia os viveiros do tomate, tapados com uns plásticos.
E então?
Havia uns charruecozinhos que faziam os cambalhões onde o tomate é plantado, ou antes havia um abre regos.
Mas o tomate era plantado nos regos para ser regado.
Depois, é o rego em sentido contrário, depois encosta a terra para o tomate.
Quando é plantado, fica no rego para ser regado. Depois quando é amatoado é em sentido contrário faz-se o cambalhão para o tomate. Ficam as valas nos vões (vãos) do tomate, no rego do tomate.
Depois era apanhado…
Depois ranchos de mulheres apanhavam-no para dentro de caixas, para cima dos carros…
Outro assunto. O "arrancar do mato" era feito praticamente por mulheres…
Por mulheres com enxadões, e também por rapazes.
E com todo este trabalho duro havia vontade de cantar e de bailar?
Andava-se a trabalhar durante o dia e chegava-se à noite e batia-se até às tantas da noite. Este Zé Marques para cantar era um homem que se podia ouvir a cantar.


Lino Mendes
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Última edição por Antonio Mendes em Sex Dez 19, 2008 10:54 pm, editado 1 vez(es)
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pedrolopes

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MensagemAssunto: Re: Á CONVERSA COM   Sex Nov 21, 2008 2:46 am

Boa iniciativa =) fazia falta aqui um tópico destes
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Antonio Mendes



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MensagemAssunto: à Conversa com José Alves Jacinto"Zé Gato"   Seg Jan 05, 2009 8:18 pm

Á

Conversa com
José Alves Jacinto






Num regresso ao passado, estamos em 8 de Outubro de 1926.Estamos em Montalvo, onde de parto natural nasce uma criança do sexo masculino a quem foi dado o nome de José Alves Jacinto. É registado em Montargil que nesses tempos atrasados era coisa que se fazia por cá.
Começa por frequentar a escola na vila, onde andou dez dias com o professor Vieira, mas como já tinha dez anos teve que sair .E atenção. meninos que hoje têm todas as facilidades, todos os dias fazia a pé o caminho de ida e volta. Entretanto, e como os pais queriam que ele aprendesse a ler e a escrever, e no Rasquete, havia uma escola só para meninas, “pagando o pai dez escudos por mês à professora, embora às escondidas do Inspector” ele lá conseguiu entrar. Era também a pé que todos os dias fazia o caminho de Montalvo para o Rasquete.
Andou dois anos à escola, ao mesmo tempo que ajudava na horta que os pais tinham. Era uma horta que levava duas semanas a cavar, mas enquanto o homem a quem “falavam” ia cavando, o “Zè” “raspava à manta “ adiante do homem.

Estamos, como já compreenderam certamente, a falar do amigo “Zè Gato”, que aos dez anos vamos encontrar vestindo umas calcitas que lhe chegavam um palmo a baixo dos joelhos, e uma camisita com frente e com presilha como os adultos. Se não tinha cinto segurava-as calças com um cordel, e quando se rasgavam “ficava com o rabo de fora”. Quando nem cordéis tinha, eram seguras pela presilha da camisa no botão das calças.


Mas vamos lá falar um pouco com o homem que para além do mais se veio a tornar num prestigiado “produtor de pêssegos” e num exímio tocador de concertina.

Amigo Zé , se é certo que com essa idade já trabalhava, não tinha uns momentos para a brincadeira , para o divertimento?
Então não tínhamos, agora é que não se tem nada.

Então o que faziam?
Sempre tivemos a mania da bola, jogávamos à porca, jogávamos à mosca, jogávamos ao zango, os mais pequenos também jogavam à pedrinha. Jogávamos ao belho e ao xito. E às vezes fazíamos uma “afunda” e entretínhamos a derrubar “pinhas”.(E aqui explique-se que os “pastores de vacas” é que usavam essas “afundas” para atirar pedras ao gado)

O amigo Zé foi crescendo, e os bailes foram naturalmente uma fase marcante na sua juventude. E chegamos à altura de ir à “Inspecção”. Nessa altura morava no Telheiro.
E por isso ia com os da Vila .O Joaquim Ginga era o Nº 50 e eu era o nº 51. Éramos noventa e tal.

E como festejavam, como faziam a festa?
Especialmente fazendo bailes ,em vários sítios da freguesia.,conforme de onde era a rapaziada. E depois havia as rivalidades, cada um tinha a sua malta. Não era como hoje.

Não era como hoje?
Hoje toda a gente se dá bem, agora dantes…Havia rivalidade entre Farinha Branca e Carvalhoso, e uma grande rivalidade entre Foros do Mocho e a Vila.

Ainda me recordo do pessoal da vila se fazer superior ao do campo. Aqueles “cabreros”, diziam, só sabem é bailar “pulado”.

Havia até uns “Dois Passos”, que no campo era bailado “pulado”, mas na Vila, nos bailes do Grémio era bailado “rasteiro”. E o que era bonito, era ver vários pares a bailar , cada um da maneira que sabia enquanto um bailava rasteiro, outros já bailavam pulado ou escufinhado.


Claro , pois um grupo de folclore não é um grupo de ballet. Senhor Zé, dizem-me que acontecia por vezes o tocador andar a tocar ao mesmo tempo….

Desde que a moda não fosse agarrada…mas isso era raro

Nessa altura já não se tocava o “ realejo”…

Tudo teve o seu tempo. Primeiro foi o Realejo, que se começou a tocar menos quando apareceu o Harmónio de uma escala., o mesmo acontecendo a este quando apareceu o Harmónio de duas escalas . Depois veio o tempo do “Acordeão” e agora nos bailes já querem é “conjuntos”.

O senhor há tempos falou-me numa festa que se fazia salvo erro, no Rasquete
Era a “festa da marcela”, era na quinta-feira da ascensão”.


E por quê esse nome?

A “ marcela” era uma erva” que servia para fazer chá .E era nesse dia que as pessoas se juntava para ir apanhá-la Então não queres ir à marcela?

E bailavam aonde, não era na estrada…
Bailava-se na rua, atrás da taberna.


Mudando de assunto, também participou em descamisadas?

Em muitas. Onde havia raparigas é que a gente ia

Mas havia assim tanta gente nesses montes e nesses lugares?

Havia, em Montalvo quando eu lá trabalhava, teria aí uns 15 anos, havia lá trezentas pessoas a trabalhar.

E à vila também ia muitas vezes?

Íamos, pois, íamos lá beber um pirolito, era um “quarto” ( de vinho) com pirolito. Juntávamos quatro ou cinco, e lá íamos quase sempre à do “Caçurras”,embora também fôssemos à doo “Rasteiro” e à do “Fonseca”. Às vezes ficávamos com a borracha que estava no gargalo da garrafa , e servia-nos de passador para o cinto.

Entretanto, quando é que se ligou aos pêssegos?

Isso foi agora mais tarde, o meu sogro morreu e tomámos conta das terras…

O que é que o senhor acha que levou ao quase desaparecimento desta produção?

Algumas empresas faliram, outros dizem que não dá para pagar a outras pessoas…

O pessegueiro tem um tempo de duração…

A dar lucro são dez anos

E que tempo demora a começar a produzir?


Depende da maneira como tratamos deles, mas se forem bem tratados de uma maneira geral são três anos. No primeiro ano já dá pêssegos mas a lógica é tirá-los todos, para que a arvora se possa crescer; no segundo ano já dão alguma coisa mas é no terceiro que já vão lá bem.

E, claro, depois tem que haver um tratamento continuado.

Claro , mas o trabalho que eu tenho com os pêssegos, se tivesse que pagar para o fazerem,…

Depreendo que daria pouco ou nenhum lucro. Mas há também o caso da qualidade das terras . Em Montargil mesmo na região são boas para a produção do pêssego .

São, são boas, e não só para pêssegos, por exemplo também para melancia, para melão ,para vinha, isto é a região da Borda Água.

Da “Borda d Água”?
De certo modo eu considero que sim ,embora aqui não tenhamos aquelas cheias, que embora fazendo alguns estragos matam a bicharada e deixam os terrenos”preparados”.



Quer dizer que se em Montargil o território fosse devidamente “ordenado”, isto é, se em cada sítio fosse cultivado aquilo para o qual o mesmo é propício,

Podíamos aqui ter de tudo. Até Montargil ( à Vila) os terrenos são de areia, propícios à produção de pêssego, melancia, vinha, melão...
Na Serra os terrenos já são outros, propícios à cultura de “pragana”,tudo quanto é de “saruga”, digamos “cereais”. Agente aqui tínhamos de tudo se trabalhássemos para isso.

Por exemplo, vamos analisar as terras, vamos cultivá-las em função das potencialidades das mesmas.

Temos terras para tudo, ali aquelas terras de barro da Barragem para baixo, e não só para frutos, também para pão(cereais)


Então por que é que não se faz, ou antes não se fez?


Esta pergunta fica no ar, mas todos sabemos que um projecto desta natureza exige uma planificação com base no conhecimento, exige uma coerente política de apoios, exige um verdadeiro espírito cooperativo, exige fundamentalmente comportamentos que gerem credibilidade. E atenção, que esse espírito cooperativo pode existir se perda do título de propriedade dos terrenos. Por exemplo na aquisição de equipamento.



Claro que a conversa continuou, mas nós ficamo-nos hoje por aqui. Mas uma questão continua---por que ninguém se lembrou de um projecto de aproveitamento total da nossa agricultura. E, claro que sei algumas respostas!


Lino Mendes


Última edição por Antonio Mendes em Qua Fev 25, 2009 12:49 pm, editado 2 vez(es)
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Antonio Mendes



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MensagemAssunto: Á CONVERSA COM MANUEL CARDOSO   Seg Jan 05, 2009 8:22 pm

À " CONVERSA" com o MANUEL CARDOSO



Nasceu em 10/08/913 e, porque, como me disse, estava sempre em todas, tornou-se uma figura conhecida da terra.
Mas conversemos um pouco com ele.
O senhor Cardoso nasceu na vila, e foi na vila que andou à Escola ?
Foi, a escola era lá em cima ao pé da Igreja, e os professores eram o Banha e a D. Raquel. Depois veio o Vieira mas já não foi no meu tempo.



Que brincadeiras é que tinham na altura ?
O que fazíamos mais era jogar à bola, de trapos e de pata descalça. Jogavam os das Afonsas aqui com os cá de cima. Eu vivia aqui em cima. Mas jogava-se também à inteira e ao pião.

Depois na sua juventude que sociedades (colectividades) é que cá havia ?
Era a Séde e era o Grémio. A Séde era daqueles que usavam gravata, e o Grémio era mais dos de pata descalça.

Qual foi o seu primeiro trabalho ?
Dava serventia ao meu pai, e depois fui aprender o ofício de carpinteiro com o mestre Babau. Foi na altura que fui também para músico.

Na Banda ?
Sim na Banda, tocava trompete; Concertina comecei a tocar mais tarde. Foi na tropa, em Santa Margarida, O Chico de Vale Barrocas tinha lá um harmónio de duas carreiras que eu depois comprei e passei a levar para a tropa.

Nessa altura ainda não tocava acordeão ?
Ainda não, ainda comprei outros harmónios, um além para os lados de Santa Margarida e outro em Cabeção.

Tocava em bailes ?
Tocava, e também tocava com os rapazes que iam às "sortes". E ia tocar a diversos lados-Mora, Coruche, Casa Branca, eu sei lá. Era então já com um acordeão de três carreiras, cromático.

Aqui na terra, onde se realizavam os bailes ?
No Sociedade, e faziam-se também no campo, fazia-se aqui no Outeiro, na "Soalheira"( que é ali, naquele largo onde a Rua D. Dinis se encontra com a Rua do Outeiro).E também tocava "realejo".Como gostava muito de bailar, tocava e bailava com as raparigas ao mesmo tempo.

E que "modas" se tocavam na altura ?
Era o "vira", era o "verdi-gaio" e era as "saias" que se cantavam muito.

E quais eram os instrumentos musicais ?
Era o "realejo" e aquele "harmónio" pequeno, que concertinas de duas escalas havia só duas ou três.

E quando não havia instrumentos…
Cantava-se e bailava-se. Depois veio o Pinta Santos com as danças e éramos todos das danças.

É verdade, eram as danças de Carnaval…
Era, era, fazíamos aquelas rodas a enrolar as fitas no "mastro". Era uma coisa bonita, havia um rapaz que tocava, ali de baixo, do Carvalhoso, da família do electricista, do Hermenegildo. E fazia-se uma espécie de teatro, só com homens, alguns vestidos de mulher.

As mulheres não se misturavam...
Naquele tempo não se podiam misturar, coitadas, se se dava um beijo a alguma já ninguém a queria…

Foi desportista. Jogou futebol e correu de bicicleta ?
Futebol, jogávamos e bem. O campo da bola era na Tojeirinha. Lá em baixo onde está a Barragem. Despegávamos aqui do trabalho, e lá íamos a correr, para o campo.

Mais tarde, o campo passou para o Pintadinho ?
Mas isso foi mais tarde. Ainda ali jogámos, e até o Benfica cá veio.

Recorda-se de alguns jogadores desse tempo ?
Era o Pailó, o Paposseco,o Manuel Batalha, o Aníbal Car-neiro, o Brazagal…

E em bicicleta
Tínhamos aqui sete ou oito corredores que só me viam à partida, nunca mais chegavam ao pé de mim, nunca mais me apanhavam.

Nesse tempo, as bicicletas eram pesadas.
A minha pesava doze quilos e tal. O Manel Batista é que tinha uma já com mudanças…

Faziam-se aqui muitas corridas ?
Faziam-se, mas aqui os meus amigos não prestavam para nada. Era o Pailó, o Joaquim da Vizinha, o Ildefonso Jaconete, o Aníbal Carneiro, e o Delgadinho que ganhava sempre o bacalhau (para o último).Vinham era também aqui um ou dois corredores de Cabeção para se juntarem comigo já que eu corria satisfatório.

Quais os jogos tradi-cionais, para homens, que aqui se jogavam ?
O Chinquilho jogava-se aqui muito, mas o que eu jogava era o "belho". Jogava-se nas tabernas mas jogava-se aos rebuçados. Jogávamos à do Zé Madeira, ali onde é hoje a loja do Caçurras; era também lá que se vendiam os estreletes e outras coisas para o Carnaval. Jogávamos lá muito ao "belho".

Nas tabernas não entravam mulheres…
Nessa altura não deixavam ir as raparigas para ao pé dos rapazes.

Era na altura do "Mercado da Praça".
Era, e quando ali se fazia também a "praça da jorna". Aos domingos juntava-se tudo aqui na vila, juntava-se toda a gente até às tantas da noite. Depois no outro dia de manhã, mesmo que já tivessem patrão ainda iam ali para a Farinha Branca à procura de trabalho, porque se houvesse alguém que pagasse mais era para aí que iam.

Festa do Senhor das Almas.
Era uma grande festa, da comissão eram o Aníbal Gomes, o António e o João Couves…

Bailava-se lá ? Há quem diga que sim, há quem diga que não, que o terreno era torto…
Bailava-se sim senhor, ao som da Música (da Banda). Eram grandes festas, durante três dias, ao sábado, ao domingo e à segunda-feira.

Esteve no Rancho…
Estive, fui um dos que o fundei, e ainda hoje lá estava se não fosse a doença da minha mulher.

Um outro assunto.Como eram os namoros do seu tempo ?
Oh pá, era muito bom .Eu andava no campo a trabalhar com o meu pai, e todos os dias vinha à vila, eu, o meu irmão João e o Custódio da Nazaré, era a correr de lá até aqui, para vir namorar.

Mas como,não namoravam à vontade…
Qual à vontade, algumas raparigas estavam a servir e nem as senhoras queriam. Ali as Jordoas, a minha mulher trabalhava lá na altura, quando me ouviam tocar aqui em casa diziam logo, ali está o malandro do Cardoso a tocar a corneta.

Mas então, como namoravam?
O namoro era tudo às escondidas, naquele tempo não havia namoros à vontade, os que eram à vontade eram logo para casar. Era tudo de fugida, ainda sabia melhor.

E com as mães ao pé.
Alguns eram, esses que já tinham ordem para namorar, mas outros não, alguns pais não queriam, era só bater nas raparigas, eu ainda para aí arranjei umas tareias, mas foi um tempo bom.

E como eram as festas do casamento ?

Era a boda só da família, com pouca gente mais,,,

Um outro assunto": Quinta-feira da Ascensão."
Íamos além para o pinhal das Lourenças, cantar e dançar, muita gente nesse dia, em que não se trabalhava, ia à espiga, trazíamos o raminho de oliveira, um coisinho de trigo, faziam-se belas festas à quinta-feira da Ascensão, agora é que tudo acabou…

Também fez teatro?
Eu também era do teatro, eu, a minha cunhada Julieta, o Tiérico, o Viterbo é que era o ensaiador. A minha irmã Euterpe também era .Às vezes, quando vínhamos do ensaio, eu a tocar concertina, o meu irmão Zé a tocar requinta e a minha irmã a cantar, ouvia-se por toda a vila.

Mas não era em Santo António que se juntava gente a tocar ?
Íamos às descamisadas que se faziam lá, e às vezes acontecia uma coisa engraçada. Quando alguém começava a fumar, o ti Zé Ribeiro dizia logo, não quero aqui ninguém a fumar que dá cabo do calitro do meu mano Aires, e toda a gente se ria,

Mas conte lá então…
Então, depois quando aparecia a massaroca preta é que era aproveitar, é que era abraços e beijinhos, naquele tempo a gente ficava ao alto.

Mas, beijinhos na cara?
Pudera, onde é que havia de ser?


E foi assim, uma "conversa com o Cardoso”, em que de muita coisa se falou mas de muita ficou também por falar…
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Antonio Mendes



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MensagemAssunto: À conversa com a Senhora Joaquina Fidalgo   Ter Jan 06, 2009 2:11 pm

À “conversa com…
…Joaquina Fidalga



Nos tempos em que deveria frequentar a Escola, como foi a sua meninice?
R: Olhe, foi passada no Arrão de Baixo. Andava por lá a brincar, a brincar com paus, erva…
Quer dizer que não foi à escola?
R: Não, nunca fui, nem sabia o que era a Escola…
Não havia Escola nos Foros?
R: Nessa altura ainda não havia.
Então, com que idade é que começou a trabalhar?
R: Tinha 11 anos. E a primeira coisa que fiz foi apanhar azeitona, de empreitada, com a minha mãe. Era à franga, naquela altura.
E o que era a FRANGA?
R: À franga era uma medida feita de madeira, que levava 15 litros. E se não estou em erro, por cada medida daquelas era um tostão.
Outras crianças faziam o mesmo?
R: Sim, como eu, outras crianças faziam o mesmo.
E depois?
R: Acabámos a azeitona, fomos arrancar mato. Fiz os 11 anos a arrancar mato. Serviço que era feito por mulheres e crianças.
Rapazes também?
R: Rapazes também. Era gente que não tinha habilidade para mais nada, trabalhava com as mulheres no arranque do mato.
E que habilidade deveria ter com 11 anos?
R: Não, sei, e no arrancar do mato era com um enxadão muito grande, que até custávamos a poder com ele.
O que é que as raparigas da sua idade vestiam no trabalho?
R: Muito engraçado, vestíamos uma ceroulinhas…
Já vestiam ceroulas?
R: Já. Mas descalças que não havia sapatos. Uma saiazinha arregaçada, e uma blusinha. Tal como as mulheres. E um chapéuzinho.
Entretanto, quando começou a ir aos bailaricos?
R: Muito novinha. Eu era endiabrada, nem queira saber para bailar e cantar. Tinha uma irmã, ia com ela e com a minha mãe.
O que bailavam nessa altura?
R: Tanta coisa. A perna alçada, o vira, o verdigaio, a chotiça, os dois passos. Peças escufinhadas. Os dois passos eram rasteiros, ou batidos ou escufinhados.
E as “Saias”?
R: Isso é que a gente cantava muito e bailava. Os bailes eram a toque de concertina, e depois, quando aí pela meia-noite ía comer qualquer coisa, a gente ficava a bailar as saias. Ao desafio, os rapazes e as raparigas. Andávamos a bailar e a cantar.
E quem é que cantava?
R: Os rapazes e as raparigas. Às vezes, os rapazes até pediam namoro às raparigas a cantar, e elas respondiam.
Mas havia alturas em que as “Saias” eram só cantadas, não eram bailadas.
R: Era, era. Por exemplo nas descamisadas. Quando era verão andávamos nas “eiras”. Que os nossos pais tinham ceara, e às vezes organizavam-se grupos a descamisar essas searas, na mesma eira. Os de lá cantavam para os de cá, e os de cá cantavam para os de lá.
No entanto, havia casas que criavam 8 e 9 filhos, e hoje, 8 e 9 filhos não são capazes de toma conta dos pais…
Está bem; mas há muitos que fazem do Lar um despejo…
R: Colocam-nos lá e mais não querem saber deles. E para pagar alguma coisa é uma briga.
Mudemos de conversa. Estamos a conversar em Maio, altura de cavar o milho.
R: Pois era.
O que é que a mulher tinha de levar para esse serviço?
R: ma “enxada”, para cavar milho era só uma enxada.
E como era?
R: O milho estava todo muito “basto”, tínhamos que o “desbastar”, “compassá-lo” que era para ficar amotoadino, para depois dar a “maçaroca”. Depois era cavado, era o pasto tirado e posto em montezinhos, e atava-se aquele “fexos” de pala que era para o gado comer.
A folha era para o gado, e o resto ía para a eira.
R: Isso mesmo, apanhávamos a “maçaroca” que ía para a eira para descamisar.
E as “Descamisadas”?
R: isso é que era bom. Grandes serões passávamos.
E quando a maçaroca preta aparecia?
R: era uso dar um beijo ao rapaz, era a altura de nos aproveitarmos.
E quanto ao milho?
R: um era vendido e outro era para gastos de casa.
De milho era o pão que se comia…
R: Pois era.
E cozia-se em casa?
R: Pouco pão se comprava. Quando a minha mãe vinha à vila, o convite que levava à gente era um pão de trigo aqui da vila, depois em casa partia-o em fatias. A fatia que calhava à gente guardávamo-la para comer no dia seguinte de manhã antes de ir para o trabalho. Era um conduto para comer com o cafézinho. No dia em que a nossa mãe vinha à vila, era uma festa. Era só quando a gente comia um bocadinho de pão de trigo. A gente sabia lá agora o que era pão de trigo.
Era verdade, que nos bailes a rapariga emprestava um lenço ao rapaz para que ele o colocasse entre a mão e a blusa para não a sujar?

R: Sim, era verdade.

E noutros trabalhos, desde que não fosse de empreitada, também se trabalhava e cantava ao mesmo tempo?
R: cantava-se também nas “mondas” do arroz, nas “mondas” do trigo, e quando às vezes íamos ceifar. Claro, desde que não fosse de empreitada. Chegávamos a ceifar trigo, aveia e cevada às treze semanas seguidas, que era o que agente fazia de Verão. Acabavam-se as mondas do arroz, íamos ceifar o “pão” para “grana”, depois acabava-se o pão e ficava logo o arroz. Acabava-se o arroz e ficava logo a azeitona. E nesses intervalos era quando se arrancava mato.
E era a arrancar mato que se cantava a casar?
R: Casávamos uma às outras.
A música era sempre a mesma?
R: Não, os “estilos” também eram diferentes.
Lembra-se de alguma letra?
R: E a senhora Joaquina cantou-nos, num dos “estilos” que sabia…
Casará, olá, casará
Agora a Joaquina casada já está.
Casada já está com o Manuel Capuchinho,
lá estará.
E disse-nos que não consta que se cantasse a casar noutras regiões.
Trabalhavam?
R: …de sol a sol.
E qual era o dia de descanso?
R: Só ao domingo. Durante a semana fazíamos bailes à noite. E então no Compadres, fazíamos as Comadres. Mesmo no campo. Começávamos a bailar ao Sábado gordo e só parávamos na quarta-feira de cinzas.
Mesmo à quarta-feira?
R: Na quarta-feira bailávamos até à noite.
Aqui na vila era o “Enterro do Entrudo”…
R: No campo era sempre a bailar…E quando não tínhamos concertinas, bailávamos a gente a cantar. A bailar e a cantar.
E quando não havia lá rapazes?
R: Havia sempre. Vinham de outros lados. A gente ia a outros lados. Íamos à Calha do Grou, à Machuqueire, a Vale de Sobreiras…
Diga-me agora uma coisa. Mesmo dentro da Freguesia de Montargil era diferente a maneira de bailar, de uns lados para outros?
R: Na charneca os bailes eram muito mais bonitos, porque era sempre muito pulado, muito mexido.
Quer dizer que as mesmas pessoas bailavam de maneira diferente?
R: Aquilo lá, quem tinha “patinhas” bailava certas modas, quem não tinha ficava para o lado.
Uma outra coisa. Como é que vinham à vila?
R: Vínhamos a pé, do Arrão de Baixo até à vila. Só calçávamos os sapatos ali à pedra da Maria Amieira, que era lá em baixo, a Parceiros. Aí é que nos calçávamos e nos descalçávamos à volta.
Mudemos de assunto. Nesse tempo havia muitas searas de arroz?
R: Havia, havia muitas.
Que trajo a mulher usava nesse trabalho?
R: A mesma coisa que para outros trabalhos, para arrancar mato, para a ceifa.
E os homens?
R: Esses usavam calças velhas, atadas cá em baixo, ou cortavam-se.
Eram mais os homens ou as mulheres que trabalhavam no arroz?
R: Bem, os homens cavavam. Depois a gente ia “enxordar a àgua”, galgávamos para dentro dos canteiros, cheios de àgua, íamos com enxadas assim a bandear a àgua, e depôs vinham os homens, com um “sementeiro” aos ombros, semeando à mão, a “lanço”.
Senhora Joaquina, a ida era na verdade muito dura, mas cantavam sempre, e bailavam sempre.
R: E nada custava tanto com agora. Embora não queira que esses tempos regressem.
E diga-me lá, cantavam para passar melhor o tempo?
R: Sei lá, fomos habituados àquilo. Olhe que dias inteiros a chover, a gente a arrancar mato e ao mesmo tempo íamos cantando.
Diz-se hoje que a vida mudou, porque a mulher não fica em casa, trabalha fora. Mas nesse tempo também trabalhava?
R: Ai, então se não trabalhava. Trabalhava e muito.
Mas as modas eram tão rápidas que quase não dava tempo de sujar.
R: Naquele tempo por vezes as “modas” eram demoradas. Por vezes bailávamos a mesma moda com sete ou oito rapazes, pois havia o “bota cá dispensa”, que arranjava às vezes alguns sarilhos. E o lenço era para não sujar a blusa que às vezes era a blusa da festa e só tínhamos aquela.

A senhora Joaquina contou-nos depois que a primeira vez foi a um carrocel tinha 18 anos e a filha 20 dias. Foi a primeira feira de Montargil. Quanto a “pregões” de nada se lembra, pois vivia no campo e os vendedores ambulantes tinham dias certos para ir. Falou-nos também do “mercado de trabalho” que enchia a “rua da frente”.

E falou-os então, da faina do arroz.
E disse-nos:
R: Foi o serviço mais mau que a mulher fez.
Era o serviço que mais fazia na charneca era o “dispor” arroz..
R: Sim senhora. Nessa altura era o que fazia mais na charneca. Íamos para ceareiros. Olhe que até o tempo do caminho tinha que ser descontado no trabalho. Depois, nenhuma queria ficar mal ao pé da outra…
As melhores eram as “faladas” noutra altura…
R: Pois. E dormíamos com a cerolitas molhadas porque não se tinha outras para vestir.
Bailavam com o traje de camponesa…
R: Nessa altura era. E dormíamos em cabanas e outras vezes mesmo ao ar livre. E olhe que foi o serviço que fiz que mais me custou nesta vida. Começávamos ao nascer do sol e às vezes ainda o sol não nascia. Começava-se por um vale abaixo, e os patrões punham uma ou duas atrás da gente a desatar os molhos para a gente não se levantar. Sempre, sempre a trabalhar com os dedos no chão, terras tão duras outras vezes com padras, e tinha-se de ir sempre ali.
Mas havia sempre vontade de bailar e de cantar…
R: Quando chegávamos à noite, fartas e trabalhar, ainda se agarrávamos umas às outras, ainda armávamos de baile. Às vezes em “montes”, que também íamos para sítios que tinham montes.
E nos Santos Populares, faziam fogueiras?
R: Sempre. Saltávamos a fogueira. Cantávamos assim coisas do Santo António, do São João, coisas que a gente ouvia aos nossos pais.

Conversar com a senhora Joaquina Fidalga, é nunca acabar. Disse-nos depois que não vinham à vila à missa, mas que em casa de seus pais não havia dia nenhum em que não rezassem e não lhe pedissem a bênção. Rezavam o pai nosso e orações muito bonitas do que as se rezam hoje, mas não se lembra de nenhuma. Orações e cantigas, que quando fazia trovoadas cantavam-se para as trovoadas abalarem.

A terminar, só mais uma coisa. As pessoas nessa altura eram mais amigas umas das outras?
R: Eram. Eram mais amigas…
Podia-se brigar?
R: Podia-se brigar, mas “quando se chegava além”, já estava tudo bem. A gente no trabalho tinha as nossas discussões, mas se “aquela além” precisasse de uma coisa, mesmo que fossem as que discutiam, acudiam logo uma à outra.
E a senhora Joaquina não quis terminassem cantar umas “saias”:

Estas é que são as saias
Estas mesmo é que são
São dançadas e cantadas e bailadas
No tempo de S. João

São cantadas e bailadas
No tempo de S. João,
estas é que são as saias
estas mesmo é que são.

Foi uma conversa com a senhora Joaquina Fidalga, que já com o gravador fechado nos falou ainda de uma outra maneira de bailar, que frizou, diziam bailar e não dançar o fadinho nos disse que o Fado também era bailado, falou-nos ainda do vira de 3, do vira de 4 e do vira rodado, referindo ainda do paspalhão, que é o malverde bailado de outra maneira.


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MensagemAssunto: À conversa com Manuel Carlos   Ter Jan 06, 2009 2:23 pm

Á

CONVERSA
com o Manuel Carlos



Manuel Carlos, de apelido Teles Macedo, nasceu no Asno Cego em 22 de Março de 1931 tendo vindo para a vila com cerca de dois anos, e aqui andou na Escola , chegada a idade.


Os professores na Vila eram o senhor Evaristo Vieira e a D.Maria Augusta. Ele dava aulas aos rapazes e ela às raparigas, que na altura não se podiam juntar. E embora não fosse legal elas vinham cá abaixo, ele ainda dava uma ajuda às raparigas em aritmética.

PASSEMOS JÁ PARA O LAZER, O DEVERTIMENTO, NA TUA JUVENTUDE…
Na minha juventude em Montargil existiam três sociedades recreativas. Era a Sociedade Artística Montargilense (o Gémio), era a Sede, na Rua do Norte (hoje Rua 25 de Abril), e ainda a Sociedade dos Ricos onde só podiam entrar pessoas que tinham uma certa capacidade financeira. Mas havia ainda outra, a mais antiga, que era o Grupo Musical Montargilense que teve um interregno durante a Guerra de 14-18, o que levou à constituição de “tunas”(na Sede e no Grémio). E mesmo depois da Banda (Grupo Musical Montargilense) ter recomeçado, as “tunas” ainda continuaram durante algum tempo mais para tocarem nos respectivos bailes.

CONSTA QUE NESSE TEMPO A JUVENTUDE ESTAVA DIVIDIDA…
É verdade, eram os da “elite” e os “desprezados”. As “diferenças”eram fomentadas pelos pais , que queriam eles arranjar o casamento para os filhos, e que por causa do namoro deles não queriam por vezes certas misturas. Começaram até a fazer bailes em casas particulares, por convite, para que os outros não pudessem lá ir. E houve até bailes que acabavam mal,… e como não havia cá Guarda…

QUEM ERA ENTÃO A AUTORIDADE LOCAL?
Havia o “regedor” e havia os “cabos de ordem” que tinham como especial função, tirar os cajados aos donos, os quais depois lhe eram devolvidos depois quando abalavam da vila.

NA TUA JUVENTUDE AINDA SE FAZIAM BAILES NO “ALTO SANTO”?
Esses bailes por vezes aconteciam por coincidência, não eram marcados antecipadamente. As pessoas estavam por ali, e às vezes mesmo sem tocador, começavam a cantar e o baile estava montado. LEMBRAS-TE DO APARECIMENTO DA PRIMEIRA TELEFONIA?
Foi durante a Guerra de Espanha (36 a 39). Foi o Dr.Azevedo que a comprou e que a colocava no parapeito da janela para que todos pudessem ouvir as notícias. Mas quando começou a Grande Guerra já havia 4 ou 5. O “Babau”(Mestre da Banda)tinha uma. Aliás foi a primeira pessoa a ter um “gramofone”em Montargil.

NESSE TEMPO FAZIA-SE TEATRO EM MONTARGIL…
O Teatro apareceu por necessidade de fazer sobreviver as “sociedades recreativas” pois as quotas eram pequenas e nem todos as podiam pagar.

QUE GÉNERO DE TEATRO SE FAZIA?
Era comédia e parte musical.

NÃO HAVIA FALTA DE GENTE?
Era difícil apanhar raparigas, mesmo para os bailes, era preciso fazer convites e eram sempre acompanhadas pelas mães.
Dos rapazes lembro-me do Patacho, que tinha muito jeito, do António Nogueira, do Tiérico, e das raparigas lembro-me de uma filha do Panga, salvo erro a Custódia, com muito jeito para cantar, lembro-me das filhas do Barrela, principalmente a mais velha, da filha mais nova do José Raposo, a que casou com o Cavaco ( a M .Fernanda).
Como músico também ainda fui com o teatro do Grémio—pois tínhamos que arranjar uma “equipa” para tocar nos intervalos que para acompanhar as que cantavam era o Barrela (saxofone tenor). E o engraçado é que fomos a Brotas e a Pavia, e quem nos acompanhou também a tocar foi a Eugénia Lima que vinha muito às Noitinhas.

MUDANDO DE ASSUNTO,FOSTE DE UMA FAMÍLIA DE FERREIROS…
Havia por cá bastantes ferreiros. O meu avô, o meu pai e o meu tio, foram ferreiros. Os irmãos do meu avô também foram ferreiros . O pai deles, também. Esta família era/é oriunda de Pombal. Mas também houve outros ferreiros por cá. Houve um “Xinfras” que era da família dos “Anhés” a quem chamavam o “Caneco”, era o Cândido Xinfras” e dele deriva o dizer-se que “era uma obra do Caneco”. Havia também o irmão Zé, e outros irmãos.
Havia também a família do Manuel Lopes , que era o avô do “Entrudo” , do Jaime e do Zé Espanhol. Havia também um que era o “Moga”, havia o “Marçapão”, era tudo ferreiros. Mas tudo espalhado por 3 ou 4 famílias.

ENTRETANTO, NA TUA FAMÍLIA, NA FAMÍLIA MACEDO, HAVIA UMA ESPECIALIDADE…
Isso é uma coisa que se pode pôr a nível nacional . Ainda hoje, e só por isso, o meu primo Luís vai morrer a trabalhar. Ainda hoje ,de Alcácer do Sal, de Grândola, de Santiago de Cacém, se querem uma machadinha boa para tirar cortiça vêm a Montargil à procura do meu primo Luís . E quem diz machadas, pode também dizer enxadas , roçadoras, foicinhas, principalmente ferramentas de corte, que só a enxada não é.
MAS HAVIA UM SEGREDO…
Não havia segredo , havia sabedoria em saber avaliar os materiais com que se lidava. Por exemplo, tive a possibilidade de saber de coisas que o meu avô fazia e ele próprio não sabia porque resultava. As pessoas até criaram mitos, dizia-se por exemplo que o meu tio Joaquim que ainda era mais especialista do que o Zé, que o Zé fazia enxadas e o Joaquim fazia machadas. Não era nada , o que um fazia também fazia o outro. Até se dizia que eles fechavam a porta para ninguém ver. Não era isso ,eu era capaz de tratar da machada à frente de uma pessoa qualquer e ela poderia ver o que quisesse que não aprendia nada.

ERA ENTÃO UMA INTUIÇÃO?
Não ,era saber avaliar o material com que se trabalhava . E a prova que eu tive depois foi apanhar um livro na Biblioteca Itenerante da F .Gulbenkian e que era dum engenheiro químico brasileiro ,que me fez compreender tudo aquilo que a gente fazia sem saber explicar o por quê, vi a razão teórica daquilo. Mais tarde, com experiências que fiz , vi tudo confirmado. Resumindo, o segredo está na têmpera. Se o arrefecimento for muito rápido, fica mais granular e não é sedimentoso. Se a têmpera for muito lenta fica mais filamentoso, quanto mais filamentoso fica mais macio é, quanto mais granular fica mais rijo é.

EXPLICA LÁ ENTÃO MELHOR…
O que faz pôr o granulado mais baixo, é a oxidação que é feita pelo contacto do oxigénio do ar com a água . E se arranjarmos uma camada boa de sabão, este vem todo ao de cima—o sabão isola a água do ar, corta-lhe o contacto ,deixa de arrefecer a água por baixo do sabão e o oxigénio do ar não faz mal nenhum ao aço, pelo contrário deixa enrijar o aço o mais possível, ele aguenta bem , e a gente tira-lhe a graduação.

MAS VOCÊS NÂO TRABALHAVAM COM TERMÓMETROS…
Na verdade não havia termómetros para medir os graus ,mas a gente sabia pela cor.
Quanto se tempera , no imediato fica completamente branco, vai passando pela chama ,e do branco começa a ficar em palha, depois amarelado, depois azul, verde, castanho e encarnado e fica destemperado. Há toda uma graduação entre o temperado e o temperado máximo .Há, pois ,que naturalmente escolher a graduação em relação ao material com que se trabalha.
E, se conhecer o material com que se trabalha, sabe-se por exemplo que um só pode temperar com óleo, e outro só se pode temperar com água.

MAS QUE ÓLEO?
Havia vários, mas por exemplo um que era usado em Pavia, era feito com sebo do talho , raspas de chavelho , óleo de linhaça e um pouco de prociato amarelo de potássio.

Foi uma conversa com Manuel Carlos

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MensagemAssunto: À conversa com Herminio Teles   Ter Jan 06, 2009 2:27 pm

Á conversa com o senhor Hermínio Godinho

“ …no meu tempo havia mais
Solidariedade entre as pessoas ,o re-
lacionamento entre as mesmas era
mais sincero…”



O senhor HERMÍNIO MENDES GODINHO nasceu em 9 de Dezembro de 1914,em Vale de Cabecinhas que pertence à Aldeia Velha de Santa Margarida.


Com a idade de 7 anos vim para Montargil onde ainda(durante pouco tempo)andei na Escola. O professor era o Banha , andavam lá umas quarenta crianças (mais rapazes que raparigas).

COMO SE VESTIAM ?
Mal, com dificuldades , alguns até iam descalços para a Escola. Os mais remediados, os rapazes com casaquinhos e calças de cotim, camisas de riscado e boina, ou mesmo em cabelo. As raparigas, de tranças e saia comprida. Mas era uma minoria que ia à escola.
Mas aos 8 já trabalhava, era ajudante do meu pai , que era pastor de ovelhas.


E NÃO APRENDEU A LER?
Fui aprendendo, mas a 3ªcloasse só a fiz aos trinta e tal anos , proposto por um rapaz amigo de Santa Justa , que era professor. Mais tarde, aos 40, fiz a 4ª classe sem ir à escola, tive que fazer novamente um requerimento.



QUANTO À SUA JUVENTUDE…
Passava-a em Montargil. A minha avó morava aqui nesta casa (Rua da Misericórdia) e eu estava aqui . Mesmo quando estava em Vale de Cabecinhas vinha muito aqui.

TRABALHAVA NO CAMPO ?
Trabalhava na Herdade de Portugal, do senhor António Jordão , mas frequentava muito a vila. Cheguei a ser sócio de duas Sociedades, o Grémio e a Sede, que era do Barriga, que a mulher dele era prima direita do meu pai , por isso é que eu lá calcei, tinha que usar lacinho para lá entrar.

IA MUITO A BAILES?
Frequentava bailes na vila e no campo, tive uma mocidade muito alegrada . Na vila ia a essas duas Sociedades , mas até aos 17/18 anos era mais no campo—era na Farinha Branca , em Cavaleiros e para lá de Santo André, para aquele lado de Zambujeiro, que os sítios onde se bailava muito era na Anta e no Zambujeiro.
Ao fim de semana era certo, e durante a semana também principalmente de verão, mas de Inverno também . De Inverno era quando as mulheres andavam nas “desmoutas” e de verão nas “eiras”. Do Monte de Portugal chegávamos a ir a um sítio que se chamava Sanguinheira, que já pertence a Santa Justa.

E QUAL ERA O TOQUE?
Tocava-se harmónio e concertina de duas escalas. O meu pai , aí por volta de 1930/36 tinha um harmónio mas guardava também os restos de uma guitarra.

FOI GUARDADOR DE CABRAS, MAS JÁ MAIS CRESCIDO O QUE FAZIA?
Aos 21 anos comecei a vender fazenda de lã, como o Figueiredo. Eram cortes de fazenda, que trazia ao ombro ,e uma medida de metro em madeira. Cada corte tinha três metros , era mais ao domingo quando a rua era um mar de gente.
De semana era de bicicleta , fazia um fardo cá atrás e ia a todo o lado, mesmo a outras terras , fazia feiras e tudo, andei uns pares de anos nisto. Mas antes ainda tive negócios de lenha e fiz carvão.

COMO SE FAZIA O CARVÃO?
Era no chão , e a lenha grossa ficava sempre por baixo, depois cobria-se tudo com terra e deitava-se fogo. Havia sempre uns buracos feitos com o cabo da enxada , por onde saia o fumo.

DEMORAVA MUITO TEMPO A FAZER?
Aí uns seis dias , mas se fosse lenha de esgalha demorava menos tempo.

E DEPOIS A VENDA?
Havia quem o vendesse a particulares, transportando-o em carroça pelas ruas e apregoando . Mas eu vendia sempre por junto a uma empresa.

MAS CHEGOU A SAIR DA TERRA…
Depois fui para um sítio chamado S.Luis, no Baixo Alentejo, no concelho de Odemira. O meu tio tinha lá uma loja e fui lá caixeiro durante 3 anos. Ao fim dos 3 anos voltei a vender “fazenda” outra vez, mas aquilo dava pouco e tinha que às vezes ir trabalhar noutras actividades .Era sempre assim, foi sempre assim.
E mais tarde também andei nas obras em Lisboa.

QUE JOGOS TRADICIONAIS É QUE HAVIA NO SEU TEMPO?
Havia o chinquilho , mas eu nunca jogava , nem ao “mil”, nada, nunca fui jogador.
Gostava de ver futebol . O campo era na Chã da Tujeirinha. O Cardoso, o Manuel Batista , o Batalha ,o Pailó, o Pé Leve esses é que eram jogadores. Mesmo longe ia muita gente ver os jogos. Depois o campo passou para o Pintadinho.

VOLTANDO AOS BAILES, QUE PEÇAS SE BAILAVAM NA ALTURA?

Eram as que estão agora no Rancho. Era o Verdigaio, a Chotiça Corrida, o Passo Largo ,o Passe-Katre , e outras.
Os bailes começavam com Chotiças , Polcas, chamavam-lhe eles “escufinhar”. Mais tarde vieram as chamadas “chulas”, esses bailes em que a gente anda para trás e para diante , mais rasteirinho. Depois começava-se então com os verdigaios e viras.

HAVIA BAILES NA VILA E NO CAMPO…
Até durante os dias de trabalho, à terça e à quinta feira havia sempre bailes. Eram os bailes do trabalho.

TINHAM NATURALMENTE QUE MUDAR DE ROUPA..
Não. Mesmo as mulheres bailavam com o fato de camponesa que traziam no trabalho.

OS BAILES ERAM NO TERREIRO, AO AR LIVRE?
Se fosse de Inverno eram dentro de casa, eram a café.

A CAFÉ?
Sim, as pessoas faziam café para fazer receita, e também se bebia aguardente , os homens.


O SENHOR HERMÍNIO IA A BAILES NAS REDONDEZAS…
Ia. A Bemposta, às Tujeiras ,à Foz, na Água Travessa, foi aí que eu aprendi a dançar o Fadinho que depois veio para os Foros do Arrão. O António Certeza tocava muito bem esse Fadinho. Também se bailava cá muito os dois passos—rasteiros, escufinhados e batidos.

COMO ERA A ALIMENTAÇÃO NOS TEMPOS DA SUA JUVENTUDE?

De manhã comia-se uma sardinha com pão e uma pinga de café. Ao almoço uma açorda, ou uma migas carvoeiras , ou umas batatas de azeite e vinagre, ou feijão frade. Ao jantar couve com carne ou feijão com couve.

E EM DIAS DE FESTA?
Podia ser umas chamadas “fatias de alho”, lá havia também umas batatas fritas com ovos , mas o mais tradicional eram as tais “fatias de alho”.

E A FESTA DO SENHOR DAS ALMAS?
Mas aí não se faziam bailes. Havia era barracas de “comes e bebes”. E cantava-se o “fado”.

FADO QUE, ALIÁS, MUITO SA CANTAVA NAS TABERNAS…
É verdade, e até vinham cantadores da Aldeia Velha de Santa Margarida . Era no tempo das décimas, feitas a partir de uma quadra. Eu também cantava o fado..

E Q UAL O ACOMPANHAMENTO?
Ou guitarra ou harmónio. Havia aí um homem de que eu não me lembro o nome mas que creio se chamava Caeiro, que tocava muito bem guitarra. Era alentejano e vivia em Cavaleiros.



VOLTANDO À FESTA DO SENHOR DAS ALMAS. DIZEM QUE AS MULHERES NÃO ENTRAVAM NOS BOTEQUINS
Não, cá fora ouviam a musica e estavam a ver aquele ambiente. As mulheres era assim . Havia também muito fogo preso.
Já se vendia ali cerveja, mas só no botequim da Angélica Carramanacho. Mas o mais era o pirolito e o capilé. Havia também quinquilharia.

E QUANTO AO MERCADO DA PRAÇA?
Aí vendia-se de tudo, até calçado, vinha até um sapateiro de Galveias.

NESSE TEMPO O HOMEM DA VILA CONSIDERAVA-SE SUPERIOR AO DO CAMPO…
E o do campo também se considerava inferior ao da vila. Mas eu fazia uma vida dos dois lados.

HÁ HOJE QUEM DIGA QUE A “PRAÇA DA JORNA” NESSE TEMPO ERA COMO UM MERCADO DE ESCRAVOS.
Há um certo exagero nessa afirmação. Os patrões tentavam de facto contratar pelo menor preço , mas o trabalhador não era obrigado a ir , e por vezes até apanhava melhor jorna e ia para outro lado.

AQUI EM MONTARGIL, PARECE-ME, ERA UMA TERRA ONDE NÃO HAVIA UM RADICAL DISTANCIAMENTO ENTRE PATRÕES E TRABALHADORES.
Era, era, tirando algumas excepções , que há sempre, não era como no Ribatejo onde um trabalhador para falar com o patrão tinha que estar sempre sem chapéu na cabeça. Aqui falavam-se mais à vontade.

A POLÍTICA JÁ POR AQUI SE FAZIA SENTIR?
Já havia qualquer coisa , embora em pequena dimensão , clandestinamente.

HOUVE POR AQUI GREVES ANTES DO 25 DE ABRIL?
Houve greves por causa das oito horas e foram mais as mulheres que foram vitoriosas . Eram muitas e os patrões precisavam , estavam em estado caótico, era o tempo das “mondas”, era o arroz que precisava de ser mondado. Era serviço feito à mão (não havia ainda os químicos), e de uma semana para a outra gastavam o dobro do dinheiro.

E DEPOIS NÃO HAVIA PERSEGUIÇÕES?
o nível do Couço ,não, embora as pessoas ficassem marcadas de futuro, podiam não apanhar trabalho se aparecessem outras.

FALE-ME DA CHARNECA.HÁ QUEM DIGA QUE CHARNECA ERA TODO O ESPAÇO A PARTIR DA “PASSADA”.
Não, a Charneca era dos Foros do Arrão para lá. Era uma terra despida de vegetação ,era só mato . Onde havia muitos chaparros já não lhe chamavam Charneca.

O SENHOR ENVEREDOU CEDO NA POLÍTICA…
Até aos 17/18 anos não ligava a isso. Depois dos vinte e tal é que comecei a minha militância na política, na clandestinidade Comecei a morar no Engarnal, mas fazia muito a minha vida no Couço e em Santa Justa , e aí é que comecei a travar esses conhecimentos com certas pessoas.

MAS CHEGOU-SE ATÉ AO 25 DE ABRIL SEM SE SABER DE TUDO ISSO..
Alguns sabiam porque eu distribuía o “AVANTE”. Havia até reuniões secretas mas o grosso das pessoas não sabiam disso.


Foi uma “conversa” com o senhor Hermínio Mendes Godinho que nos diz que “no seu tempo” havia mais solidariedade entre as pessoas, o relacionamento entre as mesmas era mais sincero , havia mais respeito na família. Que foi um passado doloroso, mas recordando a sua história há coisas de que tem saudades.
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MensagemAssunto: à Conversa com as "manas" Ramira e Margarida Godinho   Ter Jan 20, 2009 5:08 pm

Á CONVERSA
COM RAMIRA E MARGARIDA GODINHO





As irmãs RAMIRA e MARGARIDA GODINHO tornaram-se figuras típicas da nossa terra. Pela sua alegria de viver, pela sua permanente boa disposição , de toda a gente são conhecidas. Pode até dizer-se que só por si elas animavam um Carnaval. Também foram elas que com mais algumas companheiras de trabalho deram corpo ao Grupo Tradições, que fazia reconstituição de fainas.
Nasceram em 5 de Setembro de 1926, e torna-se obrigatório uma conversa com elas , cujas respostas igualmente são gémeas. Respondem a uma voz.


COMO FOI A VOSSA MENINICE?
Olhe, nas “arroteias”, o nosso pai levava a gente, pequenininhas, penduradas num caixote, por vezes num carro carregado de trigo

O QUE ERAM AS “ARROTEIAS”?
Era na “charneca”, a desmoutar tudo, a arrancar as moutas com um enxadão, para depois lavrar com burros para fazermos searas para o “quinto”, em cada cinco alqueires um era para o dono das terras..

E QUE IDADE TINHAM?
Começámos com 6 anos ou nem tantos a apanhar tremoços com os nossos irmãos mais velhos . Diziam assim pra gente, está aqui esta empreitada, depois de a acabarem assentam-se e brincam,
jogávamos à pedra.

QUE FATO USAVAM NESSA ALTURA?
Eram vestidinhos de chita e de riscado, que a nossa mãe comprava e fazia . E também fazia umas ceroulinhas.
Apanhávamos tremoços, e íamos guardar burros, guardar porcos, era assim a nossa vida.

ESTAVAM MUITO TEMPO FORA DE CASA?
O nosso pai ia para as arroteias, semeava-se o milho, atava-se a folha ,apanhava-se o milho, depois levava-se para a eira, tudo sem se ir a casa. A minha mãe é que ia levar o pão à gente, numa burra,o qual cozia em casa à noite.

ESTAVAM COM OS VOSSOS PAIS?
Estávamos numa cabana , havia uma cabana grande que era a nossa casa.

ERA O “QUARTEL”…
Eram os “quartéis”, era a gente, era o nosso tio Joaquim do Covão , era o meu tio António Fortio. Tinham as “arroteias” todas pegadas , cada qual lavrava a sua, semeava a sua, apanhava e dava o “quinto” ao patrão.

MAS ASSIM NÃO IAM À ESCOLA…
Tínhamos aí uns 9 anos quando entrámos para a Escola, andámos só ano e meio e mais 3 meses num velho à da Adelaide Fresca.
O meu pai tirou a gente para trabalhar. Mas quando andávamos na Escola era nas férias que íamos para as arroteias.

MORAVAM NO CAMPO E A ESCOLA ERA NA VILA…
Vínhamos a pé, descalças ,molhadas, apanhávamos, com cada molha que a D.Maria Augusta e o professor Vieira mandavam a gente embora. Era só sofrimento ,uma hora para cada lado.

QUE JOGOS FAZIAM NA ESCOLA?
Jogávamos à inteira e à pedrinha . E marcávamos passo. As raparigas a um e os rapazes a outro, e outro que era o Zé Tomé , a tocar tambor, tuc,tuc,tatatuc, e quando o passo não ia certo era com cada vardascada…

COMO VESTIA NESSA ALTURA?
Vestidinhos de chita que a nossa mãe fazia à gente, que não havia costureiras .E descalças, sapatos era vê-los, lá fazia a nossa mãe uns de trapo com borracha, foi o que levámos ao casamento dos nossos primos.

ERA UMA VIDA DIFÍCIL, MAS NÃO PASSAVAM FOME?

Não , assim fome, fome , não passávamos. O nosso pai tinha as “arroteias”, de verão comia-se trigo e de inverno era o milho..E tinha umas oliveiritas, assim fome , fome, não passávamos…mas dinheirinho não havia.





Assim, quando o nosso pai vendia o trigo, mandava fazer um calçado , um vestuário e pagava também o que devia na “loja”, e os tais “quintos” desapareciam…

FORAM CRESCENDO, FIZERAM-SE JOVENS. COMO FOI A VOSSA JUVENTUDE?
Sempre a trabalhar, desde a idade de 13 anos, sempre , sempre, sempre. A fazer linhas(escombros) para arroz, que dantes não havia máquinas, semeava-se arroz, tirávamos a grama, íamos ceifar o trigo, depois cavar o milho.

TREABALHARAM EM MUITOS SÍTIOS?
Em muitos sítios ---Barreiras, Arneiro Negro, Arrão de Baixo, Geraldo , Perna Molhada e para Almeirim, a pé…

A PÉ?
A pé .Para Almeirim, fazíamos o caminho em dois dias, levando o farnel e as mantas à cabeça, dormindo no meio do mato..

ÍAM PARA AS VINDIMAS?
Era ,mas uma vez estivemos lá dois meses, tínhamos 17 mas o nosso serviço era tirar tijolo com os homens…

MAS NO MEIO DESSA DURESA OS BAILARICOS NÃO SE DEIXAVAM DE FAZER…
Tirando os sábados e domingos em que vínhamos para casa, era todos os dias. De manhã tomávamos empreitadas para dormir um pouco à tarde e de noite eram bailaricos até à 1 ou 2 da manhã.

E TOCADORES? E RAPAZES ONDE SÓ TRABALHAVAM MULHERES?
Apareciam em todo o lado . E quanto não havia tocadores cantávamos e bailávamos “saias”.

QUE “MODAS” BAILAVAM NESSE TEMPO?
Eam os dois passos, dois passos batidos uma vez e batidos duas vazes chotiça batida, os palhaços, verdigaio, era tudo músicas muito bonitas . Os dois passos ou eram rasteiros, ou pulados ou escufinhados.


FALEMOS AGORA DA CEIFA
O nosso pai tomava o “pão” de empreitada para aproveitar o nosso trabalho e agente íamos ceifar, e como ele era muito divertido cantava para divertir a gente durante o trabalho.

E O CARNAVAL,COMO ERA?
Era muito bonito, íamos comer e divertir a casa um dos outros, que as mesas estavam sempre postas. Começávamos ao Sábado e acabava quarta-feira de cinzas, com o enterro do Entrudo. Um dia fazia-se o jantar numa casa e nos outros dias era noutras. E depois os homens cantavam o fado, agente cantava “saias” umas com as outras.

CONSTA QUE NESSE TEMPO AS PESSOAS DA VILA NÃO SE DAVAM MUITO BEM COM AS DO CAMPO…
As da Vila até nos chamavam, com um certo desprezo, de “cabreiras”..


POR QUÊ?
Não sei ,se calhar porque algumas guardávamos cabras…

E A FESTA DO SENHOR DAS ALMAS?
Era muito bonita. Era o fogo, os botequins onde os homens cantavam o fado.

E BAILES?
Também havia bailes, uns bailavam aqui, outros ali, em diversos sítios. Era como quando íamos à Feira da Ponte, em Ponte de Sor . Íamos em carroças e em carros de bois, eram três dias, mas logo que chegávamos ao Rasquete, ainda no caminho, vá de baile.

A VIDA ERA TÃO DURA…
Era dura mas era bonita, não é como agora , era mais divertida, não era como estes rapazes agora e estas raparigas, o divertimento era doutra maneira……

MAS VOLTANDO À FEIRA DA PONTE,LÁ TAMBEM SE CANTAVA E BAILAVA.FALA-SE AT´E NUMA CÉLEBRE “VIZINHA”…
Era a “Vizinha de Todos” porque tratava todos por vizinhos. Era uma mulher terrível cantava a despique com homens e mulheres.

FALEM-NOSA DAS COMIDAS MAIS USADAS…
Feijão frade às 9 horas , sopas de carne às 12 e migas carvoeiras à noite, e ainda comíamos a merenda. A gente até cantávamos:
O almoço quer-se às nove
e o jantar ao meio-dia
a merenda é as quatro
e a ceia ao fim do dia

E QUE BOLOS COMIAM?
Qual bolos… lá comíamos as filhoses pelo Entrudo...

E PELO NATAL?
A gente pelo menos não comíamos nada pelo Natal, o Entrudo é que era a grande festa . Olhe que andávamos um ano inteiro a juntar para gastar , para comermos melhor nessa altura . Na casa do meu pai a mesa estava sempre posta , e era 20 e 30 litros de vinho que eu ia comprar.

NESSA ALTURA E NOS TRABALHOS HAVIA UMA FIGURA DE QUE POUCOS GOSTARIAM, O “MANAGEIRO” OU “CAPATAZ”COMO TAMBÉM ERA CONHECIDO…
Pudera, ele só não nos tirava a pele se não podia…

Quando se aproximava o pôr do sol, a gente até cantava assim:

Vai-te sol, vai-te sol
para trás do barracão
alegria para o rancho
tristeza para o patrão

ou então ainda

Vai-te sol,vai-te sol
para trás do outeiro
alegria para o rancho
tristeza pró manajeiro

TRABALHAVAM MUITAS HORAS?
Era de sol a sol, mas às vezes começávamos a trabalhar antes do sol nascer e quando acabávamos já ele se tinha posto.

UMA ÚLTIMA QUESTÃO:--A”PRAÇA DAS JORNAS” ERA NESSE TEMPO UM MAR DE GENTE?
O Dr.Prates Miguel até dizia que se atirassem uma laranja lá de cima ela ficava na nossa cabeça.

E aqui recordamos que a Rua do Comércio, do Pailó até à Praça , estava à cunha aos domingos à noite, e era ali que patrões (ou manajeiros)e trabalhadores regateavam preços e trabalho.

ANDAVAM POR ALI ATÉ TARDE?
Chegávamos a arranjar trabalho, já horas adiantadas, íamos para casa , e como já tínhamos o farnel aviado púnhamos o cesto à cabeça e íamos embora para a Charneca.

Foi uma conversa com as irmãs ramiras

LINO MENDES
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MensagemAssunto: Com o Senhor Artur   Qui Fev 05, 2009 7:49 pm

Memórias…

Conversando...
com o senhor Artur (I)



Senhor Artur, quando se ligou ao cinema?
Foi em 1950. Em Maio de 1950 comecei a trabalhar como projeccionista. Foi cá em Montargil, num barracão de cinema de uma empresa do Couço (Lopes e Antoninho).
Era um cinema ambulante e estava instalado onde hoje é o Jardim.

E como começou?
Olha, eu não sabia nada de cinema. O homenzinho estava encravado, pois o genro, que trabalhava com aquilo, estava doente. Estava doente e andavam às turras, e alguém lhe disse que fosse chamar o Artur, que ele se ajeitava com outras coisas de máquinas e de electricidade, e podia ser que...
Quer dizer que começou a brincar…
É verdade, o ti João tanto insistiu que fui experimentar. E como ele me disse que experimentasse aquilo tudo, que se se queimasse era com ele...

Qual era a sua profissão na altura?
Era alfaiate.

Portanto, quando entrou pela primeira vez naquela cabina não era para continuar?
Nunca pensei até ajeitar-me com aquilo.

Mas entrou, e a partir ir daí correu várias terras…
É verdade, mas antes de abalarmos de cá, ainda fizemos a primeira feira de Montargil. O homem precisava de fazer dinheiro para pagar dívidas que tinha por aí, andava muito à rasca e quis fazer a feira.

Foi o seu começo no cinema. Mas o senhor sabe quando se começou a ver cinema em Montargil?
Eu sei lá…talvez eu tivesse os meus 11 anos quando começaram a vir aqui barracas de cinema. Era o Araújo, era o Júlio Mariani...

Mas segundo consta, o cinema começou mais cedo em Montargil...
Segundo tenho ouvido dizer, o cinema começou em Montargil onde é hoje o Café do Jorge, "O Arado". Foi o Zé Cândido, o pai do Chico Cândido, que montou uma máquina de cinema.
Ainda no tempo do cinema mudo?
Sim, sim, foi ainda no tempo do cinema mudo. Foi o Brazagal, como chamavam ao Vítor, que trabalhou com essa máquina. A cabina estava onde é hoje uma casa de banho, e projectava para o lado do quintal. Era ao livre. Ainda lá havia até, no tecto dessa casa de banho, a saída do fumo dos carvões.
Mas deu-se também cinema no quintal do Sr. Dr. Amândio? I
Mais tarde começaram a vir aí ambulantes, em carros que davam cinema ao ar livre. Aconteceu até uma vez, que estava aí a ser dado o filme a "Maria Papoila" quando caiu uma grande trovoada. Mas passada a trovoada, o filme acabou de ser dado.
Também se davam filmes no quintal do Zé da Amieira, que fica nas traseiras da casa onde estava a Sociedade.
Na altura vieram aí vários tipos... dessa pobreza, miséria e companhia onde eu andei também...
Recorda-se de um ou outro filme, de quando começou?
Alguns ficaram gravados na minha memória, eram filmes realistas, de que eu gosto muito.


E os preços das entradas, recorda-se?
Nas cadeiras, era a cinco escudos, e nas bancadas a vinte e cinco tostões e a três e quinhentos.

Davam cinema ao sábado e ao domingo?
Geralmente era só ao domingo...
Mas não me respondeu há momentos. Recorda-se de algum filme?
Se recordo..."Capas Negras", "Parabéns Sr. Vicente", "Um Homem do Ribatejo", e sei lá quantos mais. Havia um filme italiano de que eu gostava muito, era a "Tortura da Carne". E havia também "A Tosca", "Os Miseráveis"...

Disse que só dava cinema ao domingo...
A não ser que se tratasse de um dia especial, era só ao domingo. Mas chegava a dar duas sessões.
Ia muita gente ao cinema?
Barraca cheia sempre.

Não se lembra de nenhuma história engraçada de quando andava no cinema?
Há tantas histórias engraçadas, eu tenho tanta coisa na minha vida de cinema há quarenta e tal anos, tenho passado tanta coisa, tanta coisa, que dava para escrever um livro. Mas lembrei-me agora de uma...
Como te disse, dávamos cinema na "barraca" instalada onde hoje é o jardim, e o chão, como sabes, era de barro, de maneira que quando chovia era um problema. E do que e que se lembrou o velho João da Estina? Mandar comprar palha para espalhar no chão. E bem dito, bem feito, trabalhava lá o Joaquim Calado, que depois do serviço feito, deu volta à rua apregoando o cinema. E apregoava assim:
“ Hoje vão todos ao Cine Sorrafa (queria dizer Sorraia). E não há lá frio...e hoje há lá palha. “

Também tenho ouvido contar, que uma vez chamaram o benzedor, o "Ilhéu", para que a máquina trabalhasse...
Eu ainda lá não estava quando isso aconteceu, mas recordo-me de assistir a isso.
O motor estava entupido, e não pegava. Moeram-se com aquilo e naquela altura não havia cá mecânicos, não havia nada, e pronto. No fim de tanto estarem de roda daquilo, …isto é bruxedo, isto é bruxedo…chamaram o António Ilhéu, que chegou lá e começou a benzer aquilo. Entretanto, não sei quem, se foi o Camiana, se quem é que foi, desentupiu o carburador daquilo, e o motor começou a trabalhar. E pronto, para aqueles que acreditam nessas coisas foi o Ilhéu que pôs aquilo a trabalhar…
Ainda andava com o cinema ambulante quando o Salão foi inaugurado? Ainda andei durante três anos. O primeiro projeccionista do Salão foi o Barrela que Deus tem...
Um músico de muita categoria...
Exactamente, que foi meu colega como alfaiate. Um homem extraordinário. Com uma habilidade extraordinária...

Disse-nos há momentos, que como projeccionista fez a primeira feira de Montargil.
Exacto

Que ideia é que tem da mesma?
Foi uma boa feira. Muita barraca, muito movimento. Circo, carrocel, pista de automóveis. Não me recordo do filme que passei, mas recordo-me que demos uma sessão ao sábado, duas ao domingo e uma à segunda. Parece-me que demos dois filmes. Fizemos 16 ou 17 contos, o que era muito na altura.
Era uma feira mais forte do que hoje?
Muito mais. Nesse primeiro ano, à terça e à quarta-feira ainda havia feira.
Senhor Artur, a sua entrada no Salão representa para si um bom momento da sua carreira?
Muito. Na altura, trabalhava para o Araújo. Andava com o filme "Filhos de Ninguém". E estávamos em Portimão quando acabou o contrato com esse filme. E enquanto aguardava que se tratasse da papelada para começarmos a trabalhar com o filme "O dinheiro dos pobres", vim para Montargil, pois não aguentava o esperar em Lisboa numa pensão.

Mas nessa altura o Barrela era o projeccionista?
Era. Como disse, o Barrela era uma pessoa inteligentíssima, e tinha ido aprender a Mora, a mandado do P. Silveira. No entanto, a máquina que para aqui veio era uma máquina das primeiras máquinas do tempo do cinema mudo, digna de museu. Tinha uma lanterna a carboreta, e foi adaptada ao cinema sonoro. Era uma máquina em estado novo, mas reconstruída. Começaram as avarias e o Barrela que nada disso tinha aprendido começou a deixar várias sessões sem acabar. E eu acabei por ficar. Ganhava pouco, eram 20 escudos por dia, mas sempre estava em casa. E assim o Salão foi inaugurado em 1953 e eu entrei em 1956…

Havia bons momentos de cinema aqui em Montargil?
Muitos bons momentos. Foi ainda no tempo da construção da Barragem, com lotações esgotadas em duas sessões ao domingo e às vezes ao sábado. Os preços eram a três escudos, a cinco escudos e a sete e quinhentos.


Em sua opinião, ao que se deve o desinteresse pelo cinema?
Quanto a mim, deve-se ao vídeo. Foi o vídeo que deu muito cabo do cinema, e vai durar algum tempo...

Pelo que depreendo no entanto das suas acredita que o cinema vai voltar a ser o que foi?
Acredito que o cinema vai voltar a ser o que foi. É que ver cinema numa sala de espectáculo é diferente...

Entretanto, o senhor Artur também foi projeccionista da Casa do Povo?
Foi no tempo da Junta de Acção Social, fazia um circuito itenerante. Dava aqui cinema, ia a Foros do Arrão, ia a Galveias e a outra terra que agora não me lembro. Era também para ser em Ponte de Sôr, mas lá não quiseram na altura. Era cinema de 16mm, mas também trabalhei aqui, salvo erro, com um Ciclo do Charlot, com máquinas de 8mm e de Super 8.

Foi, enfim, uma "conversa" com o senhor Artur (assim é conhecido), um homem que bem poderemos considerar a memória do cinema na nossa terra. Uma conversa informal, sem perguntas premeditadas, e que nos veio dar motivos para de futuro e em colaboração com outros que desejem connosco colaborar no aprofundamento de algumas pistas, que aqui ficam. Mas…isto são memórias do cinema, que naturalmente se situam em determinada época, em determinado contexto. E foram algumas dessas páginas, quase sem por isso darmos, que o senhor Artur nos foi desvendado na conversa que continuámos.

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MensagemAssunto: Com o Senhor Artur   Qui Fev 05, 2009 8:07 pm

Memórias…

Conversando...
com o senhor Artur (II)

Falámos primeiramente, sobre cinema. Aliás, a memória do cinema da nossa terra, fora o motivo da "conversa".
Mas o senhor Artur sempre foi, e é, uma pessoa atenta ao mundo que o rodeia, e esquecemo-nos do tempo. Falámos...falámos. Tocámos em diversos pontos das memórias da nossa terra. E bom será agora que se aproveitem as pistas deixadas para outras conversas, mesmo com outras pessoas.
A Sociedade…os pregões…a Festa do Senhor das Almas…
Falámos de cinema, de toda uma sua trajectória na nossa terra.
Recuemos agora aos seus tempos de escola.

Como era nesse tempo a escola em Montargil?

A Escola era Junto ao Rossio, nas casas onde hoje vive a Maria Nogueira.
Abria às9 horas, e as dez e tal tínhamos um recreio pequeno.
Entrávamos, e saíamos ao meio dia para almoçar. Entrávamos à 1 e saíamos às quatro e tal. Era o professor Vieira para os rapazes e a D. Maria Augusta, a esposa dele, para as raparigas. Tinha saído daqui o professor Banha, que não cheguei a conhecer cá, embora o conhecesse mais tarde em Castelo Branco.

O professor Vieira era um professor duro...

Era duro, mas ensinava. Eu sei coisas que aprendi na 3ª classe, e que aqui há uns anos, alunos que andavam na 4ª classe não sabiam.
Monossílabos, dissílabos, e outras coisas.

Mas havia um certo medo de estar na escola…
Havia quem tivesse medo porque ele batia muito. E como não estudavam, não sabiam as coisas. Eu, francamente, nunca tive medo de ir para a escola. Não quer dizer que fosse muito inteligente, mas também não me considerava um burro. E fazia por aprender e estudar. Portanto, sabia, raramente não sabia…
Entrei para a escola já com 8 anos, e fiz aos 11 anos o diploma da 3ª classe.


Nessa altura faziam-se muitos jogos na Escola?

Muitos, não. Jogava-se à inteira, à cabríola, ao pião, ao pico-pau e...marcávamos passo, como sendo na tropa, ele era um militarista. Rapazes e raparigas. Íamos para o campo, para a Ribeira, para a Tujeirinha. Fazíamos castelos na areia, faziam-se guerras. De um lado os Miguelistas, de outro lado os outros. Eram passeios ao campo com lições de estudo...


Cresceu, e veio a sua juventude. Como era a terra nessa altura?
Eu gostava de mecânica, de electricista, mas não havia cá quem ensinasse, e fui aprender para alfaiate. Ainda andava na escola, aos 11 anos, quando comecei.
Saía da Escola às 4 e tal, e ía para à do velho Zé Cacho.
Saía ao sol posto e ia para casa, para a Horta da Fonte, e depois é que estudava. Era assim todos os dias, não andava na brincadeira. E todos os dias de folga assim era. Ia para a horta, regava, cavava feijão, semeava favas, semeava ervilhas, semeava batatas, cavava ali ao lado do meu pai, que me ensinou também a podar e a enxertar, sabia fazer isso tudo...

Mas teve outras actividades?
Sim, tive outras actividades. Fui alfaiate e projeccionista de cinema, e já estava no Salão quando comecei a trabalhar como mecânico à do “Joaquim da Oficina”, e depois fui motorista da ambulância, quando esta começou. Ainda tirei um curso de electricista, por correspondência. À do Joaquim estive 8 anos, e na ambulância estive 11.

Como era a terra no tempo da sua juventude?
Tinha um movimento fantástico nessa altura. Mas eu não tinha ordem vir para a vila, nem aos domingos, pois o meu pai obrigava-me a estar lá, mas nunca lhe tive ódio por isso, pois fez de mim uma pessoa com quem felizmente se pode conviver...
Mas aí aos 16/17 anos já vinha à vila, aos bailaricos da Sociedade, fui da Direcção durante 5 anos…

Como eram os bailes na Sociedade?
Eram bailes com 3 turnos geralmente, e estava tudo à espera que a música tocasse para correr a convidar a rapariga.

Quem é que tocava?
Concertinas, acordeonistas...

Quanto se pagava para bailar?
Dois e quinhentos (2$50) os homens, que as mulheres não pagavam. Quem fazia o baile, tinha que andar de porta em porta a convidá-las. E os pais, mesmo sem serem sócios, tinham entrada nesse dia...

E a que horas acabava o baile?
Começava às 9 da noite de um dia, já com a sala cheia, e chegava a acabar no outro dia, já com sol. Eu apanhei a Sociedade ainda na casa onde está hoje o Zé do Engarnal, e depois é que passou para a casa onde acabou...

Também faziam lá teatro?
Era a Custódia Mendes, que cantava que era uma maravilha, a Beatriz, que começou no teatro a namorar o Joaquim António, com quem casou, o Zé Tomé, o Patacho, o Velhote, o Barão, o Salsinha, o Pele e Osso...e outros que agora não me recordo.
Eu é que montei o palco, fixei as cadeiras, fiz a plateia da casa em papel quadriculado, passava ali o dia em vez de estar em casa a trabalhar como alfaiate. Recordo-me ainda, que havia também sempre um "acto de variedades", cantava também a Maria Manuela, do Fouxinha, e os músicos eram o Manuel Barrela, em saxofone, o mestre Manuel Babau, em viola, e parece-me que também o Zé Arlindo ainda tocou trompete ou barítono.
O ensaiador era o mestre Viterbo.
Não havia microfones. E a luz era a "Petromax".
Além da Sociedade, nessa altura a vida de convívio era só nas tabernas?
Sim, e havia várias. Bebia-se uns copos e falava-se. Ao domingo, na parte da tarde, pelo menos. Domingo à tarde juntava-se o pessoal todo aqui na vila para arranjar patrão. Andavam por aqui até às tantas...

Senhor Artur, recorda-se também da Festa do Senhor das Almas?
Perfeitamente. Todos os anos lá ia, embora fosse garoto.

Recorda-se da Procissão, em que iam as "afogaças"?
De tudo isso me recordo. Também do lançamento do "balão", lançado duma ripa presa ao "coreto"da Música…

E as barracas, de que eram?
Vinho ao copo, fêveras assadas (tinham sempre um lume no chão ou num fogareiro) eram barracas de comes e bebes, vendia-se o pirolito, de garrafa e de chupar…
Creio que a procissão era a seguir à missa, de manhã. Se hoje se voltasse a fazer tudo isso era uma maravilha que se reconstituía.

Apareciam tocadores de concertinas?
Apareciam. Havia também um tipo que era o Zé Vicente que tocava guitarra. Na altura das festas aparecia aí o Zé Serralheiro, e havia então os que tocavam harmónio de duas escalas.

E bailava-se?
O terreno não era propício para isso.
Era a Festa da terra…
Era a Festa do Senhor das Almas, que tinha uma fama muito grande. Vinha gente de todos os lados…

Havia quermesse?
Sim, havia o "bazar", onde o que era dado, era "lançado". Toda a noite se ouvia de dentro da quermesse o “o quem dá mais...”

A propósito, recorda-se de alguns “pregões”?
Era rara a semana em que não houvesse. Por exemplo, se ofereciam promessas ao Senhor dos Passos (chouriços, frangos, galinhas...), para se saber, apregoava-se nas ruas. Quem é...que dá mais do que… (e indicava-se uma quantia) por um frango (ou outra coisa) da afogaça do Senhor dos Passos…E assim o frango dava volta à rua. Ou se por exemplo se perdia uma coisa, lá estava o pregoeiro. Quem achou…ou saiba quem tenha achado…uma pulseira (por exemplo), é favor entregá-la…à senhora (fulano de tal…)


Notámos o enlevo com que o senhor Artur nos falou na máquina de projectar, uma peça digna de museu , com que o Salão iniciou a sua actividade.
Como notámos a mágoa com que nos referiu o facto de algumas peças terem já desaparecido. Aqui deixamos também o nosso lamento, o nosso, protesto quanto aos que não sabem respeitar o que deles não é.
Sinais dos tempos?

Era o jornal da terra...
Era mesmo o jornal da terra. E o Ti Rabanita a vender castanhas? “Esta é a boa castanha assada...”E com a carroça dava volta à vila, vendendo castanha, assada e crua. E o Caçurras, esse com uma campânula, que arranjou, também apregoava a castanha, mas à sua porta da venda.
Vinham entretanto, os caleiros de Sousel, apregoando a Cal branca... ou ainda o “Olha a louça do Redondo...” com os vendedores, vindos daquela vila que apregoavam ao lado dos burros carregados de louça.
Lembro-me ainda de muitos cabreiros que vinham da Beira, ali nas Afonsas paravam o rebanho, e depois de ordenharem as cabras o anunciavam pelas ruas. “Leite barato… a vinte e cinco tostões o litro…”
O último pregão que por aqui se fez ouvir foi o do Manuel Carapau...
Foi, foi.

(E o senhor Artur recordou ainda que uma peixeira também apregoava o peixe, e que os ensaios da Música eram anunciados a toque de corneta. Não se recordava no entanto, se os jornais quando o Amador os vendia, também eram apregoados).

Senhor Artur, que recordações tem do Carnaval dos seus tempos de juventude?
Era divertido. Eram as Contradanças, com o teatro de rua. Era o Pintas Santos, e mais tarde o Zé da Barraca.

E os “Robertos”?
Apareciam muito, mas que me lembre, não pelo Carnaval. Davam volta à rua. E os Saltimbancos! Que actuavam na Praça, no Largo da Igreja, e no Largo da Estalagem...Ainda me lembro de uns que traziam uma cabra que subia por uma escada. O povo juntava-se à volta, mas havia quem se escapasse quando o palhaço anunciava que ia pregar o primeiro susto (fazer o peditório, de boina na mão).

E a terminar, esta já longa "conversa", ainda se recorda do Mercado na Praça?
Era todos os domingos, foi quando o Jaconete era varredor. Era ele que cedo ia colocar os "tabuleiros" em cima dos "cavaletes". Vendia-se hortaliças, calçada, fatos (recordo-me do Sapateiro das Galveias). Depois acabou...não sei porquê...

Preocupou-nos, inicialmente, todo um percurso do Cinema nesta terra. Mas no fim, ficaram umas pinceladas sobre Montargil nos seus múltiplos aspectos que podem agora funcionar como ponto de partia para um mais aprofundar dos assuntos.
É uma colaboração que a todos se pede. Porque inclusivamente, em todas as Memórias há falhas, há lacunas, que só o colectivo pode corrigir ou completar.

Lino Mendes
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MensagemAssunto: SAPATEIRO   Sex Maio 08, 2009 2:50 pm

O Sapateiro



Montargil foi uma terra de sapateiros e dos bons, que aqui vinham de outras terras à procura nomeadamente de botins, e curiosamente eu sou filho e neto de mestres do ofício. Depois de um período em que estava como aprendiz, o artesão passava a oficial e essencialmente, mestre era aquele que tinha aprendizes.

Recuando no tempo, vejamos os que aqui tiveram oficinas/lojas de sapateiro: (Mestre Hipólito, ao que me disseram um dos melhores artífices da região, na Rua Grande, e pela mesma altura o Barriga, na Rua do Norte; João Silva Godinho, José Hermenegildo Correia (José Badeirana), José Aires todos na Rua de Trás; Lourenço Godinho, na Rua das Amoreiras onde também esteve o António José Ferreira Martins (António José Anhé),Manuel Augusto Lopes (Manuel Airoso) , Francisco Carlos Macedo (Chico Lourenço) e Virgílio Nogueira Fernandes, todos na Rua Grande;António Constantino Ferreira (António Manassa) na Travessa do Poço); António Ferreira (António Oleiro), Joaquim Lopes Vieira e Miguel Luís (Miguel Sapateiro) os três na Rua do Serrado; ultimamente refiram-se o Augusto Dias, o Francisco Nunes(Chico Banacau) e o Abel Francisco Ferreira, este o único que aos 85 anos ainda coloca uns saltos e faz mais um ou outro arranjo. Entretanto e nestas oficinas trabalhavam alguns oficiais que nunca montaram loja.

Mas na sua casa das Escadinhas de São Sebastião, a senhora Maria Inês trabalhou como “ajuntadeira”(cosendo à máquina o que era possível fazer na actividade de sapateiro).

Uma explicação: a Rua Grande é hoje a Rua do Comércio, a Rua de Trás é hoje a Rua da Misericórdia, a Rua do Norte é a Rua 25 de Abril, enquanto a Rua do Serrado é a Rua 1º de Maio.


De que ferramentas precisavam entretanto, quem pretendia montar oficina?
Essencialmente a máquina para coser, as diversas fôrmas em madeira em conformidade com o tamanho do calçado, a fôrma de ferro o, a pedra para bater a sola e os respectivos martelos, a tábua e a faca para cortar ,a sovela para palmilhar e pontar.

Fazia-se novo e consertava-se, em especial pondo meias solas e gáspeas, e a bota era o género que mais se procurava. Mais tarde aparecem as solas de pneu.



Vejamos agora a sequência da “construção” de um par de calçado— sapato, bota ou botim.
Começava-se por tirar a medida ao pé do cliente, para saber qual a fôrma que se iria usar Fazia-se o molde em papel com o qual se iria cortar o cabedal ou o calfe, conforme se tratasse de calçado para o trabalho ou para o domingo, o qual, depois de cosido à máquina (“ajuntado”), era pregado provisoriamente à fôrma na qual igualmente já estava também a “palmilha”.Colocava-se então a “vira”e tudo era cosido (palmilhado) com fio reforçado com cerol, após o que à “vira” se cosia(“pontava”) então a sola..Era no coser da “empenha”(assim se chamava a parte de cabedal/calfe)com a palmilha e a “vira” que estava a verdadeira consistência do produto.
Refira-se que o fio usado para coser a sola, era preparado não com cerol mas com cera.
e que depois e com a fôrma dentro à qual era seguro, era então cosido à sola. E se o calçado moderno é hoje cosido à máquina e em série, naquele tempo—e ainda hoje há quem o faça—era cosido à mão e com fio preparado para o efeito. Fio que era preparado com cera ou com cerol. O cerol era para palmilhar, para tornar o fio mais consistente, e a cera era para coser as meias solas e as solas.
Era um trabalho bastante duro, esse de coser o calçado!

E estava a peça feita!

Horário de trabalho não havia, trabalhava-se de manhã, à tarde e por vezes ao serão. Descansava-se à segunda-feira já que ao domingo era quando o pessoal do campo vinha à vila.

Sapateiros, chegou a haver mais de vinte, e a aprendizagem era de três anos durante os quais nada ganhavam a não ser o calçado e de uma maneira geral começava-se logo que acabada a escola.

Como facilmente se depreende havia muito trabalho mas entretanto começaram a aparecer as botas de borracha que eram então usadas nos trabalhos do campo. A que se seguiu o “pronto a calçar” para usar deitar fora.

Quanto à indumentária, preferencialmente escura, tinha como peça principal um avental de ganga ,com frente e enfiado no pescoço.

(De uma “conversa” com Virgílio Nogueira Fernandes em 13/09/06)

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